Resgate do colo materno e consequente diminuição da agressividade

–Relato de atendimento a uma adolescente privada de liberdade –      

A agressividade é algo inato do ser humano. A criança nasce com ela. Segundo PAES (2000) as crianças têm a necessidade de manifestarem sua agressividade como forma de aprender a lidar com ela e assim desenvolverem sua capacidade de se relacionar socialmente de forma saudável.  Porém, segundo o mesmo autor, embasado em estudos da psicanálise, quando essa agressividade voltada para a mãe e a família não é “suportada” e assim mal conduzida no âmbito familiar, faz com que a criança se sinta insegura e angustiada, buscando alternativas e “suposta” estabilidade emocional fora do lar.

É surgido então, através de estudos de Melanie Klein e Winnicott, o conceito da privação emocional, que é percebido na atual pedagogia socioeducativa como plano de fundo de uma formação de personalidade mais vulnerável ao cometimento de atos infracionais. (PAES, 2000)

Winnicott (2005, apud PAES, 2000) afirma que as atitudes delinquentes como o furto, o roubo e outras formas de violência, quando originadas por privação emocional causada pelas rupturas das relações familiares, são uma forma de sobrevivência afetiva da criança ou do adolescente.

Quando uma criança rouba fora de casa, ainda está procurando a mãe, mas procurando-a com maior sentimento de frustração e necessitando encontrar, ao mesmo tempo, a autoridade paterna que poderá por limite ao efeito concreto de seu comportamento impulsivo e à atuação das idéias que ocorrem quando está excitada (WINNICOTT, 2005, p. 130, apud PAES, 2000)

Todas essas questões são percebidas no trabalho com os adolescentes privados de liberdade, que cumprem medida socioeducativa em Unidades de Internação: Dificuldade ou movimento interrompido em relação à mãe e/ou ausência do pai.

Segundo Bert Hellinger, o primeiro e decisivo sucesso em nossa vida é o nascimento. O próximo evento decisivo e o próximo sucesso é o movimento em direção à nossa mãe, porém para muitas pessoas há algumas vivências na tenra idade que bloqueiam o caminho para a mãe. Elas experimentam uma separação prematura de suas progenitoras, por vários motivos diferentes: doença da mãe, do bebê, entrega para adoção ou para a avó cuidar, dificuldade da mãe por algum motivo, morte e etc. Essa separação gera um sentimento de dor e angústia muito grande que mais tarde pode resultar em dificuldades em seus relacionamentos, por “medo inconsciente” em reviver a mesma angústia passada, e também em outros aspectos de sucesso na vida que podem ficar restritos, inclusive financeiros. Além da dificuldade desse retorno à essa mãe, dificuldade de contato físico e emocional com a genitora. Qual a solução, portanto, quando acontece esse movimento interrompido em relação à mãe?

Nós voltamos para dentro daquela situação como fora anos atrás, nos tornamos aquela criança naqueles dias e olhamos para a nossa mãe como fizemos. Mesmo que a dor, a frustração e raiva brotem novamente dentro de nós, tomamos um pequeno passo em direção a ela – com amor. Fazemos uma pausa, olhamos em seus olhos, e esperamos a coragem e a força para dar o próximo pequeno passo. Novamente paramos, sentimos e conscientemente reconhecemos nossos sentimentos, agora podemos suportá-los com amor por nós mesmos e por nossa mãe. Então, bravamente damos mais um pequeno passo, e de novo, lentamente, um passo após o outro até estarmos nos braços de nossa mãe, abrindo mão de toda resistência, nos entregando ao seu corpo, abraçando-a bem apertado no segredo de sua presença, de volta, finalmente, juntos no amor que temos por ela e nunca nos deixou ou a ela, sentindo o amor de mãe que também nunca nos abandonou: Eu com ela novamente. (HELLINGER)

E em relação ao pai? Da mesma forma o exercício acima pode ser feito. Quando se olha os pais como seres humanos como todos os outros, factíveis a erros e acertos, e que conseguiu nos passar, no mínimo, o presente da Vida, que chegou a nós por meio da nossa mãe. Deixamos assim, com ele, o que lhe pertence e suas dificuldades e tomamos a vida que veio a nós, também através dele. Como diz Bert Hellinger:  “Mamãe é a Vida. Papai é o mundo.” Se conseguimos superar esse movimento interrompido em relação à mãe e ao pai, teremos êxito. (Lembrando que esse exercício da citação acima pode ser feito mesmo mentalmente – através de uma imagem interior ou por meio de representantes nas constelações familiares), independente se os pais são vivos ou não, conhecidos ou não.

Por meio dessas percepções e novo olhar é possível trabalhar a reconstrução do adolescente, hoje privado de liberdade, anteriormente privado em múltiplos aspectos.

Temos um exemplo de caso prático de uma adolescente que cumpria medida socioeducativa:

Vamos chamá-la de “Patrícia” (nome fictício).

Esta adolescente estava cumprindo medida em meio fechado (internação definitiva) por análogo a latrocínio (roubo seguido de morte).

A adolescente costumava manter comportamento agressivo, sempre em meio a brigas e conflitos entre as adolescentes e mesmo servidores. Certa vez foi solicitada pela psicóloga que a acompanha um trabalho com constelação familiar, sugerida pela demanda da adolescente que relatava incomodada pelas imagens que a acometiam, relacionadas à sua vítima. E assim foi feito.

A adolescente foi chamada (também pelo seu desejo) a ser trabalhada a sua questão, em meio a um grupo de adolescentes que participavam desse encontro. Quando a adolescente coloca o seu desejo “Parar de ver sua vítima” fica notório em seu corpo e em sua fala, que ainda existia o desejo de matar e ainda não tinha refletido o suficiente na gravidade de seu ato. Então buscamos trabalhar o que poderia estar por trás dessa agressividade. Foi quando foi perguntada a ela sobre o seu ato e ela disse que tinha vontade de matar mesmo, de ser vista, ser manchete de jornal. Relata que aproveitou a ocasião de um roubo para isso. E ainda relatava desejo de matar outras pessoas, que dizia serem as próximas. Perguntada em relação à sua história, ela relata ter vários irmãos, todos criados em orfanatos. A mãe era viva, sabiam onde residia, porém não havia contato.  Havia deixado as crianças no abrigo por dificuldades na criação. O pai tinha dificuldades com álcool e estava progredindo bem em seu tratamento.  Segundo a adolescente o mesmo desejava se recuperar para unir os irmãos novamente, tirando-os do abrigo. Sendo assim, foi questionada à adolescente: “Quem você gostaria que te visse”?  “Por quem você gostaria de ser vista, realmente?” E assim ela silenciou-se, abaixou a cabeça e depois de cair algumas lágrimas, disse: “Minha Mãe” Pronto, a partir de sua resposta e sentimento direcionado, começamos a trabalhar.

Foi pedida a ela que escolhesse alguém (outra adolescente que estava presente neste grupo) para representar sua mãe e outra seu pai.  E ela mesma foi colocada em frente aos mesmos. É importante relatar que quando alguém representa outra pessoa da família do constelado, ela sente-se exatamente como quem ela representa e assim traz informações importantes de conflitos e suas soluções referentes ao contexto familiar ao qual pertence o constelado.

Sendo assim, a adolescente percebeu questões importantes referentes a seu pai, em relação ao seu lugar de pequena frente a ele. Ela se colocava muito grande e passível de tentar resolver das formas mais difíceis as questões que eram dele, muitas vezes proveniente desse sentimento de gratidão por tudo que ele lhe deu e ela nunca conseguiria compensar. O que é uma verdade. O que recebemos dos pais é muito grande e nada que tentamos lhe dar em troca compensa isso, além da gratidão e fazermos alguma coisa boa com nossa vida e dos demais à nossa volta. Isso está dentro das Leis do equilíbrio (dar e receber) percebidas também por Bert Hellinger. Ela percebeu que muitas coisas que ela dizia que faria por ele, até mesmo agredir ou matar outras pessoas que o prejudicassem, não era na verdade o seu desejo. Ele mostrou que era o grande e dava conta de se cuidar. Ela precisaria cuidar dela mesma e agir de forma diferente.

E então a adolescente foi colocada em frente à representante da mãe. Ficaram um momento se olhando.  Foi pedido pela facilitadora que a adolescente se ajoelhasse para olhar a mãe como menor, em seu lugar de filha. Ao fazer esse movimento sugerido, a representante da mãe caiu em prantos, dizendo: “Não.. assim não.. Ela fica muito pequena, desemparada..” E logo após, relata: “Me dá vontade de ajoelhar também”. Quando a representante diz isso, a facilitadora percebe que ela deseja se colocar também como pequena e que algo em sua criança pode ter faltado. É pedido assim que outra pessoa represente a mãe da mãe da adolescente, e assim foi feito. Ao colocar a representante da avó foi percebido que este colo faltou da avó para a mãe e assim, consequentemente para a filha, nossa adolescente. E assim, o ciclo foi refeito, os movimentos interrompidos foram reestabelecidos e a avó acolheu a mãe, que após ser acolhida, conseguiu acolher a filha. A imagem final foi a adolescente deitada no colo de seus pais (que sentaram no chão para a acolher) em lágrimas. A adolescente chorou muito nesse colo que havia sido perdido e nesse momento reestabelecido.

Ao final, quando a adolescente senta novamente ao lado da facilitadora, é percebido sua postura mais leve e então ela diz:

“Eu não tenho vontade de matar mais ninguém”. 

E a partir desse dia foi percebido que sua postura agressiva diminuiu consideravelmente. Ela mesma relata perceber que ficou mais tranquila com as pessoas, e isso foi notório, tanto no seu relacionamento com as outras adolescentes quanto com os servidores.

Se ela vai encontrar sua mãe lá fora ou se vão reestabelecer esses vínculos fisicamente não sabemos, o importante é o movimento que se reestabeleceu dentro dela, mesmo que isso nunca aconteça externamente. Esse é o papel da constelação familiar e de todas as vertentes que buscam a solução de conflitos. Como estabelecer um bom contato com o outro, se nem mesmo tenho um bom contato comigo mesmo? E o início do contato conosco é a concordância com nossa origem e nossos pais, como são e do jeito que foi. Porque somos eles, somos a continuação deles. E se dentro de mim, algum deles falta ou sinto ódio, eu não ficarei bem, nem mesmo farei bem a quem estiver a minha volta, ou então estarei sempre buscando em um outro o preenchimento desse vazio, que só eu mesmo poderei preencher.

O projeto Bebê Canguru também percebe na exterogestação uma forma de diminuição dessa agressividade posterior, onde o contato pele a pele da mãe (também pai ou outro corpo humano) através do colo/abraço oferece ao bebê um recurso na diminuição da angústia dessa separação, a primeira separação dolorosa do bebê, quando este se separa do corpo da mãe ao nascer, que na verdade, era o seu próprio corpo.

Algumas culturas estão sendo estudadas pela psicanalista Luciene Godoy, autora do projeto Bebê Canguru, onde se percebe relações na forma como recebem os bebês e a forma como a sociedade lida com o outro. Em uma cultura indígena Mundugumur da Nova Guiné, a sociedade carrega os bebês em folhas ásperas como bolsas de mão, sem contato corporal. É uma sociedade com alto grau de agressividade e violência. Outra, porém, os esquimós Netsilik, carregam os bebês em uma bolsa grudada ao corpo, como os cangurus. É uma sociedade amorosa e prestativa.

Não sabemos até que ponto a forma como a criança é recebida no mundo interfere em sua vivência em sociedade, mas é certo que já se tem observações de efeitos positivos em crianças que foram acolhidas próximas ao corpo até aos os seis meses de idade, em que apresentam uma maior independência, segurança, amor próprio e amorosidade.

Assim, quanto mais colo, presença, inclusão dos que pertencem, independente de quaisquer julgamentos e olhar a todos com respeito independente se “bons ou maus”, menos agressividade.

E quanto mais permitimos que o outro respeite a sua própria história e origem, do jeito que foi, sem julgamentos, mais ganhamos com um ser humano no mínimo, mais compassivo, no mundo.

*Cada um tem o colo (e a solução) ao qual lhe pertence.

Mt.  Adriana Silvestre

(10/2016)

Adriana Silvestre é parceira do projeto Bebê Canguru. Na foto com seu filho de 2 meses, Uriel

**Conheça mais sobre o projeto Bebê Canguru através do link:www.bebecanguru.com.br

PAES, Paulo C. Duarte, “Privação emocional e pedagogia socioeducativa”, Adolescentes em conflito com a lei – Fundamentos e práticas da socioeducação, 2000.

HELLINGER, Bert. O Amor do Espírito na Hellinger Ciência, tradução, ed Atman, 2009

GODOY, Luciene. “A felicidade bate à sua pele. Uma teoria do apaixonamento, 2016.

*”O sucesso tem o rosto da mãe”: http://www.constelandocomafonte.com.br/2013/08/20-o-sucesso-em-nossa-vida-bert.html