Foto: Setting Musicoterápico – “Espaço sagrado da terapia, onde o paciente se sente livre e seguro para a expressão de seus sentimentos e emoções”.

    Redescobrindo a Música da Alma e Reescrevendo a sua História

       A partir de uma leitura analítica, podemos dizer que possuímos duas almas: uma externa e outra interna. A “alma externa” pode ser considerada como aquela máscara social que utilizamos para podermos nos relacionar com as pessoas. É a nossa persona, nossa personalidade representada através do nosso ego, nosso “eu exterior” que é mostrado na relação com as pessoas.

       Muitas vezes nos identificam tanto com essa “alma exterior” que esquecemos que dentro de nós existe outra alma, sedenta de ser reconhecida e amada, onde reside nosso “eu verdadeiro”, nossa essência divina e perfeita. E quando isso acontece, quando você deixa essa “alma interior” pra viver apenas a exterior, acontece uma desconexão, um processo patológico. Nossa persona precisa de um grau de flexibilidade, de um grau de equilíbrio para que nossa alma interna também possa se manifestar.

       A Musicoterapia vêm então resgatar essa “alma perdida”, esse som que existe dentro de nós, e que muitas vezes passamos a vida toda sem lhe “dar ouvidos.” E quando isso acontece, quando não damos “ouvido” a esse som que grita interiormente pra ser ouvido, a vida parece ir por um caminho que não seria o ideal, não seria o caminho de nossa auto-realização. E quando isso acontece, nos traz uma gama de doenças psíquicas, distúrbios de comportamentos, trazendo conseqüências diretas às nossas relações intra e interpessoais. Apenas quando aceitamos e vibramos na sintonia de nossas almas “externa e interna” seremos completos.

       Esse é o maior objetivo da Musicoterapia, trabalhar o indivíduo por completo, em toda a sua expressão corporal, sonora e musical. “Porque a Musicoterapia vê e ouve o indivíduo assim como vê/ouve música: não em partes distintas, mas na sua totalidade, com todas as suas melodias, harmonias e ritmos internos, que se unem na construção do ser, da música que habita esse ser, que é a sua própria individualidade representada através do som”. (Silva, 2003).

As atuais clínicas e instituições oferecem aos seus pacientes essa oportunidade de resgatarem essa música interna e reescreverem a sua história pessoal, musical, através da Musicoterapia. Geralmente são formadas por uma equipe interdisciplinar, contendo Fisioterapia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Educador Físico e Psicologia. O atendimento é feito em consultório, “setting terapêutico”, onde o cliente se sente livre e acolhido pra expressar seus conteúdos, ou mesmo, em atendimento domiciliar, para os casos mais comprometidos, em que o paciente não tem como se locomover à clínica.

Objetivos

Atender a população em geral. Atendimento clínico nas áreas da Educação Especial (deficiência mental, hiperatividade, autismo) Saúde Mental (depressão, transtornos sócio-afetivos, esquizofrenia), reabilitação motora, pacientes comatosos, hospitalizados e todos aqueles que procuram desenvolvimento pessoal e auto-conhecimento através do universo dos sons e de seu corpo.

Breve Relatos de Casos

Relatarei brevemente o caso de uma paciente atendida à domicílio, adolescente, 17 anos, em que apresenta uma doença degenerativa, Coréia de Huntiton. A chamarei de Cíntia (nome fictício).

    Cíntia apresentava-se com um desenvolvimento normal até aos cinco anos de idade. Foi perdendo seus movimentos e fala, apresentando-se em uma cadeira especial. Devido à característica progressiva da doença e à sua dificuldade de interação, comunicação, a musicoterapia veio proporcionar momentos de troca e interação através dos instrumentos musicais, som, corpo. Abriram-se, assim, novos canais de comunicação da paciente com o mundo.

    A musicoterapia permitiu um resgate de sua capacidade comunicativa, da expressão verbal, de sua resposta corporal e sonora de seus sentimentos e sensações. A Musicoterapia estimulou, ainda, seu contato corporal, visual e relaxamento muscular, permitindo, assim, uma movimentação mais ampla e contato significativo.

    Através da Musicoterapia, Cíntia pôde perceber a sua “alma interna” perfeita, uma vez que a Musicoterapia valoriza as possibilidades do paciente e as potencializa. Assim, sabendo-se ‘perfeita’ ela pode assim, Ser. Sabendo-se humana, ela pode, assim, expressar-se, sentir, permitir, trocar. A Musicoterapia é tudo isso, é troca, som, aconchego, silêncio…

Outra paciente atendida na Musicoterapia merece nossa atenção. A chamarei de Karina (nome fictício). Karin, 53 anos, é historiadora e vem de uma família que viveu histórias de guerra, drogas, destruição. Isso sempre foi muito presente em sua vida, refletindo em todos os aspectos da mesma. Por muito tempo não percebia sua “alma interna” gritando para que fosse percebida. Por muito tempo viveu a história de seus pais, seus filhos, seu ex-marido.

    Hoje, através da Musicoterapia, ela está se permitindo reescrever sua história, redescobrir sua música, reencontrar sua “alma perdida” e abandonada. Hoje, Karina está permitindo se amar, se olhar, se ouvir… Está se permitindo Ser quem ela realmente é, e não quem os outros disseram que ela fosse. Hoje, Karina, através da Musicoterapia, através de seu Universo Sonoro individual, inventa a sua própria história, recria a sua própria música. Uma historiadora que se cansou de viver a história dos outros e resolveu ser a Dona de sua própria História.

Conclusão

O mundo é sonoro. O ser humano é sonoro. “Somos feitos de silêncio e som”. No dia em que nos permitirmos conectar com nossa “alma interna” e percebermos o seu som, estaremos entrando no precioso processo de individuação*, nossa auto-realização. Seremos quem realmente somos; inteiros, completos.

    A Musicoterapia, vem, assim, permitir que o outro seja o que ele é. E expresse isso ao mundo. Que ele se reconheça como parte integrante do Universo e Indispensável. Como alguém que faz toda a diferença. Porque realmente faz. Isso é auto-estima, isso é amor próprio. Isso é relação intrapessoal. A relação de você com você mesmo. Quando você a tiver alcançado, você pode partir pra relação interpessoal, sua relação com o outro, com o mundo.

    A Musicoterapia tem mesmo esse objetivo, o reencontro consigo mesmo e o reencontro com o outro. Um reencontro com sua própria sua vida, com sua história, com sua música. “Sua música só você poderá revelar. Se você não o fizer o mundo não ficará gravado com o seu som.” Portanto, “Dance calmamente a música da ‘alma’ e sinta a força de sua canção”.

(2004)

Mt. Adriana Silvestre

 

A Musicoterapia é uma ciência em que se utiliza a música e seus elementos pra prevenir, reabilitar e/ou intervir de forma terapêutica no ser humano. Visa trabalhar aspectos bio-psico-sociais e espirituais do indivíduo, facilitando sua integração e/ou reintegração no grupo social.

Dia 15 de Setembro – Dia do Musicoterapeuta. Parabéns a todos esses “divinos” profissionais, que fazem o papel de psicopompo*, de facilitador para que o ser humano possa permitir expressar sua riqueza sonoro-musical, dentro desse rico e incomensurável Universo Sonoro.

 *Individuação – Uma pessoa tornar-se si mesma, inteira, indivisível e distinta de outras pessoas ou da psicologia coletiva (embora também em relação com estas). O ego (alma externa) está para a INTEGRAÇÃO (vista socialmente como ADAPTAÇÃO) como o self (alma interna) está para a individuação (auto-experiência e auto-realização)

*Psicopompo – Representação do terapeuta, médico. Aquele que atua como um intermediário, que ajuda o cliente a integrar seus dois pólos, o Ego (centro da mente consciente) e o Self (si-mesmo, vida psicológica que o guia à sua realização, seu ‘eu verdadeiro’). Ego e Self, representam, respectivamente, a ‘alma externa’ e a ‘alma interna’ citada no decorrer do trabalho.

Referências Bibliográficas:

Conto: O espelho, de Machado de Assis.
Dicionário crítico de Análise Junguiana
MILLECO, L. A. M. F.; BRANDÃO, M. R. E.; MILLECO, R. P. É preciso cantar- Musicoterapia, cantos e canções. Rio de Janeiro: Enelivros, 2001.
SILVA, Adriana Silvestre. A Descoberta do “eu” no processo musicoterápico.- Relato de caso clínico. Trabalho de conclusão do curso de graduação de Musicoterapia pela UFG, Goiânia, 2003.