Quando o Vazio se torna Presença   

É muito comum, em um atendimento de constelação familiar com adolescentes privados de liberdade, surgir o tema/queixa sobre o “Vazio” sentido interiormente. E isso é realmente muito natural: Eles se “afastaram” da família fisicamente, estavam “afastados”, mesmo dentro da mesma habitação quando se envolviam com drogas e atos infracionais. A realidade da maioria é que não conheceram ou não conviveram com um ou ambos os pais de origem por diversos fatores: morte, afastamento e assim, se colocam “afastados” fisicamente e emocionalmente; mas internamente estão profundamente ligados a todos de sua origem, especialmente aqueles aos quais se tornaram “excluídos” / “esquecidos” da família devido a esse afastamento físico ou através de algum julgamento relacionado a atos e atitudes cometidos por essa pessoa. Essas questões estão relacionadas à quebra de uma lei natural que rege as famílias, percebidas através das constelações sistêmicas como a “Lei do Pertencimento”, onde é percebido que todos os membros da família têm o mesmo direito de pertencer, independente de seus atos, atitudes, morte ou afastamento. E assim, quando essa lei é quebrada (através de um esquecimento ou julgamento particular ou coletivo) isso gera desarmonia na família e então algum membro posterior acabará por representar esse excluído, através de atos ou destinos semelhantes ao dessa pessoa excluída. E tudo isso acontece para que esse membro anterior seja visto e “incluído” novamente na família, com respeito ao seu lugar de direito nela, independente de seus atos ou situação*.

//*(Quem pertence à família? A quem estamos vinculados, mesmo inconscientemente?*Laços de sangue -Consanguíneos: Pai e Mãe, irmãos e meio irmãos (Vivos ou não / nascidos ou não), tios, avós, bisavós.*Não consanguíneos: Parceiros anteriores de ambos os pais e/ou avós; pessoas que contribuíram de alguma forma para nossa permanência na vida e/ou sucesso; pessoas que tiraram a vida de algum membro da família (assassinos/agressores) e vítimas de membros agressores da nossa família.)//

É muito comum percepções de exclusões entre as famílias dos adolescentes nessas internações. A grande maioria não tem acesso ao pai de origem, outros a mãe se afastou por algum motivo e deixou o filho sob cuidados de outrem. Há vários casos em que o pai ou a mãe também tiveram dificuldades com drogas, privação de liberdade, dentre outros. E o adolescente vem repetindo esse “padrão” familiar, por amor, inconsciente, mesmo através da exclusão desse membro familiar, ele diz internamente: “Eu sigo você; querida mamãe e/ou querido papai; por amor”. Ou: “Antes eu que você”, “Eu no seu lugar” e então segue destinos semelhantes ou mais difíceis que os pais, na tentativa interna de os “salvarem” ou mesmo de “incluírem” os mesmos na família novamente e através de seus atos, que eles possam também ser vistos.

Relatos breves de atendimentos:

Obs.: Os adolescentes internados nas unidades socioeducativas para posterior reinserção na sociedade são atendidos (dentro do possível e da limitação de profissionais), por meio de uma equipe multidisciplinar, sendo a constelação uma técnica a mais nesse processo de conscientização e transformação dos que assim se prontificam para tal.

A adolescente em questão trouxe o sentimento “vazio” que sentia, que também denominou “depressão” e através da colocação dos bonecos, foi percebido algo essencial. Ela colocou um boneco para representa-la. Colocou o boneco para representar o vazio/depressão ao seu lado direito e do lado esquerdo um para representar sua mãe. Colocou seu pai (o qual não teve muito contato) próximo à mãe – um pouco mais à frente, longe de todos. O interessante é que o boneco para representar o pai era idêntico ao boneco que representava o vazio. Ela pôde perceber isso e disse, já fazendo o movimento com os bonecos, que poderia tirar o vazio e colocar o pai ao seu lado, no lugar do vazio, e assim foi feito e trabalhadas essas questões, relacionadas ao seu sintoma (vazio) referente à exclusão de alguém que faltava, que talvez não pôde estar presente, mas deixou com ela o presente da vida, através do encontro dele com sua mãe, e isso pôde ser agradecido e valorizado. E “o que ele não conseguiu fazer” – estar presente e afins, foi devolvido a ele com respeito e sem julgamentos, gerando assim, uma sensação de completude, assentimento em relação à sua história e paz.

Obs.: A “inclusão” da família de origem dos adolescentes é de extrema importância, uma vez que a mãe representa a ‘Vida’ e o pai o ‘Mundo’, a ordem e o limite; tão essenciais na formação de um ser humano.

Outro caso importante a relatar é sobre uma adolescente, que vamos chamar de Kely (nome fictício), 17 anos, cumprindo medida de internação por homicídio, há aproximadamente 1 (um) ano.

No primeiro atendimento em grupo de musicoterapia em que ela participou se mostrou muito envolvida em atos e pensamentos da criminalidade. Era um atendimento voltado ao dia dos pais e então a mesma relatou muito “ódio” da mãe e dificuldade durante o dia em comemoração às mães. Era notório como isso a afetava profundamente, através de suas palavras e expressão corporal.

No entanto, começamos a trabalhar essas questões de forma gradual e muitas coisas foram surgindo. A mãe havia suicidado quando ela tinha 2 (dois) anos e ainda amamentava.

É comum uma criança que perde os pais tão cedo, sentir raiva, pois aquela a quem ela mais confiava foi embora, “a abandonou”, ainda mais tendo ela mesmo tirado a própria vida. Isso acaba gerando um peso a mais na criança que sente não ter sido vista e amparada quando precisava. E a angústia da criança pode transformar-se em raiva e em tristeza profunda/ depressão, que vem também a partir da “exclusão” e o medo de sofrer novamente a faz afastar-se de qualquer sentimento em relação à mãe. Mas como foi dito inicialmente, não é possível excluir sem internamente estar ainda mais ligado, e a raiva se mostra apenas como uma “proteção” / medo de sofrer novamente, também um amor, distorcido. E assim, apresenta, inconscientemente, um desejo em segui-la também, na morte, quando diz através de seus atos “Eu sigo você”, querida mamãe.

E isso foi percebido em sua vida. Kely seguiu a mãe em vários aspectos: através do uso de drogas, prostituição e até mesmo, tentativas de suicídio. E a mãe não tinha (conscientemente) um lugar no seu coração, através da afirmativa de proteção que adolescente e muitos apresentam: “Eu não tenho mãe.” ou “Eu não tenho pai”. Essas afirmações não são pertinentes e geram exclusão. E a exclusão gera desarmonia e adoecimento. Independente se vivo ou morto, conhecido ou não, todos nós temos um Pai e temos uma Mãe, independente se foram dentro de nossas expectativas ou não, o maior eles nos deram: o direito de estar na Vida. E como não existem ser humanos perfeitos, eles foram perfeitos dentro do que conseguiram fazer e no fato de terem passado a vida adiante. Essa percepção gera paz. Isso vem sendo trabalhado com ela e vem apresentando bons resultados. Os pais de sua mãe também tiveram um destino difícil: o avô materno da adolescente matou a avó materna de uma forma violenta e de alguma forma a adolescente traz esse contexto novamente quando se torna também uma agressora. A reconciliação com sua origem materna e paterna traz forças para que ela possa seguir em paz consigo e com seus semelhantes. Ela também reconheceu o que sua mãe conseguiu lhe dar, inclusive que a mesma pediu para outra pessoa da família, de confiança, que cuidassem de seus filhos, que cuidasse dela. Ainda é trabalhado com a mesma as questões referentes a seu ato e comportamento, que oscila bastante, mas é considerável a melhora de sua postura frente à vida e sua mãe. Nos atendimentos, a raiva deu lugar à emoção; a emoção às lágrimas, e as lágrimas à presença. Quando o Vazio se transforma em Presença.

*E neste ano (2017) Kely participou da festa em homenagem às mães, onde apresentou, em conjunto com outra adolescente uma canção para as mães (e para sua mãe), demostrando tranquilidade e um grande talento com seu timbre de voz. Hoje a sua mãe tem um lugar em seu coração com respeito e é percebido uma diminuição considerável em seu comportamento e fala de agressividade que trazia inicialmente. Segue a canção apresentada, abaixo:

“Versos simples” – Chimarruts

“Sabe, já faz tempo que eu queria te falar

Das coisas que trago no peito

Saudade, já não sei se é a palavra certa para usar,

Ainda lembro do seu jeito.

Não te trago ouro

Porque ele não entra no céu

E nenhuma riqueza deste mundo.

Não te trago flores

Porque elas secam e caem ao chão.

Te trago os meus versos simples,

Mas que fiz de coração.”

  Mt. Adriana Silvestre

(06/2017)

Indicação de vídeos/aula, de Manoel Augusto, bastante ilustrativos:

“Reconexão com o pai”https://www.youtube.com/watch?v=B44wsDR4eQ8

“Reconexão com a mãe”https://www.youtube.com/watch?v=lbM1DZZxvSM