Quando a Inclusão Cura O olhar à adoção e privação de liberdade na adolescência.

Relato de atendimento com Constelação Familiar

 

É muito comum entre os históricos de vida de adolescentes privados de liberdade, cumprindo medida socioeducativa o distanciamento físico e afetivo em relação ao pai, alguma dificuldade em relação à mãe, algum membro da família que já esteve envolvido ou excluído da família (mesmo abortos naturais dos irmãos), situações trágicas envolvendo mortes, agressores e vítimas ou mesmo segredos de família envolvendo algum desses aspectos citados.

Denominamos excluídos aqueles que de alguma forma foram esquecidos ou julgados a partir de nossas dores e concepções como não merecedores do pertencimento à família. Muitas vezes um membro da família é excluído porque não pôde estar na vida (morreu cedo, ou se afastou, ou cometeu algum ato que não condiz com o que esperamos dela).  Assim, no nosso coração esta pessoa não tem um lugar. E quando alguém que faz parte do nosso sistema não tem um lugar, fica um vazio e neste vazio já foi percebido exatamente a repetição do destino daquele ao qual eu julgo ou tive dificuldades, daquele o qual excluí do meu coração.

Nossas maiores dores e dificuldades têm a ver com a nossa história, mais especificamente com  a nossa resposta frente ao que aconteceu conosco. O acontecido pode ter passado (tudo passa), mas quando não estamos em concordância com o que aconteceu, nós revivemos no presente, dia a dia, as mesmas dores do passado, e dessa forma não conseguimos seguir adiante. Era exatamente isso o que acontecia com a referida adolescente privada de liberdade. Foi permitido por ela e sua mãe adotiva o relato breve de sua historia e atendimento. Vamos dar-lhe o nome fictício de Mara.

Mara, 16 anos estava cumprindo medida socioeducativa há aproximadamente 11 meses por ato análogo a roubo. Desde sua concepção estava destinada à família à qual pertence hoje como filha. Sua mãe adotiva acompanhou a gestação e ao nascer foi entregue à mesma. Sempre foi amada e cuidada com muito carinho e amor e sabia da verdade se sua história, porém, ao chegar à adolescência começou a “rebeldia”. Dentro dela existia o desejo em conhecer sua mãe biológica e um dia fugiu de casa para tal fim. Acontece que este encontro não foi como esperava, pois a mãe biológica realmente não estava “disponível” pra ela e tampouco para seus irmãos, os quais também foram entregues, cada um à uma família. A mãe apresentava profundas dificuldades com drogas /dificuldades em estar na vida, por esse motivo mesmo, entregou a filha a uma família que poderia estar presente e oferecer o melhor que os filhos mereciam. //Geralmente é esse o desejo de uma mãe quando entrega o filho. Apesar de que o filho no profundo muitas vezes prefere “passar dificuldades” próximo à mãe a ter uma vida confortável longe da mesma. Isso é percebido no profundo. Porém, da mesma forma, pode nutrir o agradecimento à mãe biológica por ter entregue à uma família que pôde dar-lhe maiores chances de uma vida melhor.

No entanto vemos que não é o que aconteceu, mas o que e faço com isso, e como olho pra minha história, que muda todo o meu presente e o meu futuro.

Porém, Mara não tinha conseguido fazer isso ainda. Nutria muita raiva da mãe biológica e sem perceber estava a “seguindo” em suas atitudes destrutivas em relação à vida, da mesma forma, ou um pouco pior, que a mãe: Estava destruindo a si mesma nas drogas e prejudicando o outro, arriscando-se a matar ou a morrer. E sua postura era assim mesmo: Uma parte dela tinha a face da criminalidade (raiva, gírias, drogas e etc.) e outra parte tinha o desejo em ficar bem, também em respeito e agradecimento àquela mãe que a criou. Porém ela nunca conseguiria ficar bem se dentro dela também não olhasse à outra mãe (a primeira) que não conseguiu dar a presença, nem o sustento, porém deu o maior; o mínimo- que é o máximo, que conseguiu dar: a Vida, a oportunidade em estar na vida, respirar, aprender e evoluir, mesmo que tenha sido com outra família; isso também deve ser agradecido: Além da vida, a mãe a entregou à uma família que confiou que daria o que ela não conseguiria dar: presença, afeto, sustento financeiro, espiritual e etc.

Mara participava de atendimentos em grupo e resistia inicialmente em dar esse lugar à mãe primeira em seu coração, se mostrando distante e não interessada em olhar essas questões, porém um dia percebeu que isso seria um presente pra ela mesma, e pedindo um atendimento individual ela se permitiu olhar pra si mesma e sua história. Foi quando iniciou o seu processo de retorno à sua essência. Percebeu-se que pode ser tão compassiva e amorosa quanto qualquer ser humano. Foi capaz de se liberar. E se preencher de esperança em poder fazer diferente. Quando nos liberamos do julgamento, nos liberamos em precisar repetir as mesmas histórias. “Tudo o que rejeitamos, apodera-se de nós. Tudo o que respeitamos, deixa-nos livres”  (Jung). O que mudou não foi a história da adolescente, foi o olhar da mesma à sua própria história. Não podemos mudar o passado, mas sim o nosso presente e a forma como olhamos para o nosso passado. Só assim, o futuro tem chance.

E quanto ao pai da adolescente? Ela tinha o pai adotivo, o qual nutria muito afeto, porém o biológico não se sabia nada sobre ele. Ao conversarmos sobre a importância dele pra ela, a adolescente afirmou, com suas palavras: “Na verdade, ele é o mais importante, não é? Ele ‘me  deu’ (parte de mim) para minha mãe me conceber”. Nesse momento eu me calei, pois essa percepção que veio dela foi tão linda, que se todos os adolescentes privados de liberdade pudessem ter essa percepção, seria mais leve pra eles a construção de suas histórias, preenchida com a vida, como foi e como chegou a cada um. Pois foi percebida a ausência paterna externa e principalmente interna, a maior causa da busca por drogas mais pesadas e envolvimentos. Como percebeu Bert Hellinger: “Sem o pai no coração, sem limites na vida”. E a busca por “punir” qualquer um dois pais reveste-se em sua própria punição, uma vez que somos a extensão/continuação deles, seremos os primeiros a ser prejudicados. Da mesma forma, se olhamos os nossos pais como seres humanos, com o mesmo direito de errar, se devolvemos a eles “o que é deles” (as dificuldades deles) e recebemos o que conseguiram nos dar com gratidão, temos TUDO.

Por meio da técnica de visualização ela pôde buscar a imagem de seu pai, internamente e conseguiu visualizar detalhes dele que são dela. Pôde se reencontrar em seu pai internamente e pôde agradecê-lo por ter encontrado sua mãe e sua mãe a entregue à essa família que está pronta a apoiá-la e ajudá-la a crescer. E a partir disso pôde receber. Sentiu-se recebendo tantas bênçãos como uma cachoeira em seu corpo, limpando e preenchendo o seu coração, e assim, agradeceu. Sentiu-se amada e amparada por uma Força tão grandiosa Divina que teve certeza que esse dia estava marcado e escrito nas estrelas. Esse encontro não foi apenas entre uma terapeuta e uma adolescente. Foi um encontro de vários sistemas familiares, um reencontro de essência e força interior, que vai ficar gravado pra sempre na memória e no coração desta adolescente e de todo seu sistema familiar e sociedade. Aquele que antes feria, agora pode cuidar. E nisso todos nós ganhamos.

A cura de uma pessoa é a cura de todo o seu sistema.

Olhar sem julgar. O olhar com Amor muda Tudo.

Adriana Silvestre

www.adrianasilveste.com.br

 

Junho 2019

//Obs.: A foto é ilustrativa, retirada da internet//