Hiperatividade: “Quem você procura?”

Hiperatividade ou TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é hoje muito conhecido e percebido entre muitas de nossas crianças e adultos. Entre seus sintomas destaca-se a inquietude, vontade de fazer tudo ao mesmo tempo, dificuldade em ficar “parado” e dificuldade em se dedicar atenção a algo (especialmente se não for do seu agrado) = desatenção.

Através desses sintomas, consequências podem ser percebidas, como dificuldade na escola, em casa e no trabalho. Na idade adulta o até agora “hiperativo” pode acabar canalizando essa “energia” de sobra se dedicando extremamente a ele, o que pode ser positivo, porém pode trazer uma sobrecarga de stress a um nível mais alto do que o comum, o que acaba interferindo negativamente em sua saúde de forma geral.

Por meio do trabalho com a Musicoterapia e/ ou Yoga é possível perceber a minimização desses sintomas, através de uma prática introspectiva e/ou expressiva, buscando a canalização de forma positiva dessa energia, conscientização da mesma e transformação percebida na diminuição da agitação e encontro com a sua quietude interior.

Porém, apesar da diminuição dos sintomas observados, através do trabalho em Constelação Familiar, podemos entrar neste questionamento: “ Na verdade, quem (ou o quê) você procura?”

Bert Hellinger, criador das constelações familiares percebeu, através dos trabalhos realizados com constelações familiares, buscando a mensagem dos sintomas, //as mensagens do sintoma da Hiperatividade se repetiam sempre// e por isso pôde-se concluir, (mesmo sem generalizar) que alguém na família estava “faltando”, estava excluída e/ou esquecida.

E assim, podemos observar através dos sintomas essa ‘inquietude’, esse andar para todos os lados, sem parar, como se estivesse mesmo à procura de alguém. De forma inconsciente eu “busco”  todo o tempo, essa pessoa que me falta, e o meu corpo expressa isso através de uma agitação sem fim, que me incomoda e  traz prejuízos a uma melhor qualidade de vida.

Então, o que deve ser feito para que realmente essa agitação possa diminuir? O melhor caminho é Buscar. Ir ao encontro dessa pessoa que falta e incluí-la novamente na família, incluí-la dentro de si; redescobrir o seu lugar, na família e no mundo. E ir ao encontro dessa pessoa muitas vezes não significa encontrá-la fora de você, mas sim, dentro.

E como fazê-lo? Através da introspecção e busca interior, através da ajuda da constelação familiar, através da busca na família sobre histórias muitas vezes não ditas, segredos; através de saber o seu lugar na família entre os irmãos, incluindo os abortos, natimortos e os que tiveram um destino mais difícil, crianças dadas em adoção e etc. Através da inclusão daqueles que morreram ou você não tem contato e  aqueles que foram, de certa forma, vistos/julgados como “maus” e assim “excluídos” (não repeitados em seu lugar).

E Quem faz parte? Primeiramente os pais (origem – que me deram a vida) e depois aqueles que me permitiram o sustento para eu permanecesse na vida (mesmo não consanguíneo); avós (consanguíneos), tios, irmãos, filhos, e pessoas também não consanguíneas que tiveram que “perder” para que eu pudesse ganhar a vida, tais como : parceiros anteriores de ambos os pais ou avós, dentre outros.

Um Breve Caso Ilustrativo:

Uma adolescente foi atendida de forma individual. Sua queixa: Nervosismo, Hiperatividade (TDAH) e Depressão.

Seu desejo: Diminuição desses sintomas, em busca de viver bem sem eles.

Ao ser perguntada há quanto tempo ela percebe em si esses sintomas, ela responde: “Desde sempre. Desde que me conheço por gente”.

Quando o sintoma é percebido desde muito cedo, ele pode estar relacionado à algo anterior até mesmo ao seu nascimento, algum sintoma da família, algo que falta anteriormente à ela.

Foram-lhe perguntadas outras questões e então foi pedido a mesma que posicione um boneco (instrumento musical reciclado em forma de boneco) para lhe representar e outros três para representar os sintomas trazidos: o Nervosismo, a Hiperatividade e a Depressão.

Ela assim o fez e a imagem ficou semelhante à foto abaixo (não é a imagem real colocada por ela, mas sim, ilustrativa) :

 

 

**(A ordem dos bonecos pode estar alterada na foto, porém todos estavam um ao lado do outro, olhando pra frente, como mostra a figura. O representante dela foi colocado na foto maior e vermelho para facilitar o destaque).

Ao perceber essa imagem, foi lembrada sobre a pergunta relacionada aos irmãos, em que a mesma relatara ter mais quatro irmãos vivos, em que ela era a quinta, a caçula. Porém, ao ser perguntada se ela sabia se a mãe tinha tido algum aborto ou algo semelhante, ela relata que sim, que a mãe teve um antes dela nascer, uma menina, que chegou a nascer de 9 meses, porém já sem vida: natimorta. Essa irmã, então é a quinta filha, ela a sexta.

(Essa questão em relação à ordem entre os irmãos tem grande significado na alma da família. Foi percebida como uma Lei natural da Ordem, em que cada um tem o seu lugar, independente se tenha ficado muito ou pouco, se tenha sido um aborto espontâneo ou provocado, natimorto, ou vivido um pouco e falecido.. É percebido que todos fazem parte e quando não se conta ou se é esquecido, não comentado, não incluído (talvez pela dor de se lembrar) isso fere a Lei da Ordem e a lei do Pertencimento da família, gerando alguma desarmonia, ou inquietação, depressão ou algum outro sintoma relacionado, como a Hiperatividade.)

É pedido, assim, que ela coloque no espaço um representante para essa suposta “irmã”. Ela escolhe um bonequinho e o coloca deitado no espaço afastado da representante dela mesma e os sintomas. Porém, antes mesmo de ser questionada se mudaria algum boneco de lugar, ela mesma volta o representante dela e dos sintomas para a representante da irmã, como se todos olhassem a ela.

A imagem fica semelhante a essa:

 

 

Ao perceber essa conexão inconsciente, a adolescente se emociona. Percebe “culpa inconsciente” e amor oculto quando relata que se a irmã tivesse nascido, ela talvez não tivesse a vida e “não teria dado tanto trabalho aos pais”, segundo ela.

Bert Hellinger percebe esse amor oculto aos irmãos não nascidos e muitas vezes a dificuldade dos que nasceram em “tomar a vida”, uma vez que os outros não tiveram essa oportunidade devido a seu destino. É percebido isso como “amor cego”, quando fica apenas na inconsciência da dor e não se olha nos olhos daquele que se foi. Uma vez que todos os sintomas indicavam para quem eles olhavam, ela precisava fazer o mesmo.

É trabalhada, assim, através da técnica de visualização essa reconexão consciente com a mesma. É pedido que, de olhos fechados, através de uma introspecção, respiração e centramento, que a mesma busque dentro dela essa “irmã perdida”.

E assim, a adolescente reencontra, através de uma imagem interior, essa irmã. Pôde, assim, olhá-la nos olhos, sentir o amor e a saudade por alguém que nem mesmo havia conhecido fisicamente. Pôde perceber através de sua própria experiência o que essa irmã desejaria pra ela, também o quanto o seu sofrimento aqui a entristeceria e a sua alegria a alegraria.

Mas não é exatamente isso o que querem os irmãos? Sim, mas nós não percebemos e então, sofremos.

Essa reconexão traz para a adolescente uma nova forma de pensar, uma nova forma de sentir e de incluir. O nervosismo, a inquietação e a depressão ainda podem acontecer, por esse ou outros motivos; porém a forma como olhamos a esses sentimentos terá se transformado, e quando a forma de olhar se transforma, quando o foco sai do sintoma para a sua mensagem, quando olhamos junto com o sintoma para onde ele olha; assim ele cumpre o seu papel e não precisa mais ficar.

Assim, ela pôde voltar, dentro dela. ao seu lugar de direito na família, o sexto lugar; tendo a consciência de que em nenhum momento ela poderia substituir aquela irmã: o lugar de sua irmã é dela, independente se ela ficou pouco ou não, esse foi o seu destino e existe força nisso.

A inclusão da pessoa que falta, a concordância com o seu destino e a percepção de seu lugar na família faz com que eu possa até mesmo transformar o meu destino e seguir o meu caminho de forma um pouco mais leve.

Assim, fazemos a nossa parte e somos ativos à nossa própria transformação. Assim voltamos a ser o autor de nossa própria história e nosso próprio destino, em nosso lugar. E o nosso lugar é sempre mais leve..

 

Obs.: Foi passada técnicas de meditação/yoga à adolescente, que relata estar praticando diariamente e ter percebido melhoras significativas em relação a um maior equilíbrio e bem-estar.

 

Mt Adriana Silvestre

 (Junho/ 2014)