Estancamento e regressão de doenças ditas “progressivas”

Uma paciente com parkinson  

O “destino” da doença progressiva é a sua “progressão”, no sentido negativo da palavra e pela linguagem utilizada nos meios médicos?

A musicoterapia vem nos mostrar o contrário.

Pesquisas como a do neurologista Oliver Sacks (1997), nos Estados Unidos e de Egberto Reis Barbosa (2005), no Brasil, dentre inúmeras outras, comprovam que o trabalho com a musicoterapia pode retardar e até mesmo estancar a progressão do quadro patológico, associados à uma diminuição dos sintomas que a doença acarreta, através da minimização dos efeitos de ordem motora e não-motora, relacionados à doença de Parkinson.

Pacientes com Alzheimer e Parkinson são atendidos e cada vez mais podemos perceber o estancamento e mesmo a “involução” dos sintomas relacionados à doença e uma “evolução” do quadro de saúde e melhora global perceptível, no decorrer do processo musicoterapêutico.

*Vamos expor sucintamente um caso de uma paciente com Parkinson:

Iremos chamá-la de Rita (nome fictício). Idade: 58 anos (2010). Iniciou o tratamento musicoterapêutico aos 56 anos, em 2008.

Durante avaliação e início do tratamento Rita demonstra: Tremores acentuados, baixa auto-estima, ansiedade elevada (o que se percebia dar origem e vazão aos tremores e difícil dicção); insegurança, dificuldade de imaginação, criatividade e predominância de pensamentos negativos. Muita “razão”; pouco lugar à “emoção”, e consequentemente à música. Toda essa “musicoterapia” parecia ser uma “coisa sem graça”; uma vez que a vida lhe mostrava assim; dentro das características da depressão, muitas vezes associada ao paciente com doença de Parkinson: A vida era mesmo “preto e branco”, sem sentido algum; como ela mesma havia definido em uma palavra: “Miserável”.

Nesse momento, a Musicoterapia entrou. Ela permitiu que a paciente “entrasse” nesse “buraco negro”, permitindo-se assim, reconstruí-lo. Pois não é negando esse abismo que sairemos dele. Se negarmos ele sempre estará lá, camuflado e escondido, onde você pode “cair”a qualquer momento novamente.

Então resolvemos ‘entrar’. E entramos de cabeça, corpo e som, para sentí-lo e para perceber, em sintonia com ele, para onde ele olhava. Assim, poderíamos recriá-lo para que ele se tornasse uma ponte para a sua transformação.

E assim foi: com o tempo ela foi percebendo que ela podia sair de lá quando quisesse, apartir de suas decisões e percepções mais profundas. Ela pôde concordar com esse “buraco”, com a sua ajuda e assim resolveu/decidiu sair de lá, olhando para a direção certa, em direção a algo maior. Uma resolução fácil, mas de prática difícil.

Nesse momento a Musicoterapia se mostra como uma grande aliada nesse processo. Pois assim como existe o ‘buraco” existe a “luz” acima dele; como ela mesma pôde perceber. E foi assim que fomos “cantando e tocando” suas dores (que a gente acolhe e entende), suas esperanças (que são renovadas) e vitórias (que são tremendamente vividas).

Esse é um pequeno “trecho” de uma música que é a sua história, que ela mesma compôs. E apartir saí resolvemos compô-la diferente. A luta interna da positividade é uma luta de cada dia, e ela está se saindo muito bem. E com isso tudo à sua volta tem mudado, porque ela mesma mudou. Parece que o “sol” brilha diferente, agora ela o pôde perceber assim. Os tremores diminuíram consideravelmente; sua fala (dicção) também; o que ajuda no trabalho interdisciplinar (fonoaudiólogo, fisioterapeuta, psicólogo, etc) e em sua qualidade de vida integral.

Hoje ela consegue “ouvir” o que seu corpo tem a dizer. Hoje ela consegue amá-lo e aceitá-lo, assim como toda a sua história, que hoje é cantada, vivida, sonhada. Pois hoje ela está se redescobrindo, acolhendo uma parte dela que ela mesma tinha abandonado: sua alma, seus pais (pai e mãe), sua história. Hoje, sua alma (juntamente com seu corpo e mente) pode cantar, dançar e sonhar, pois ela se permite ser feliz, apesar de quaisquer circunstâncias… Isso é progressão da doença, ou da saúde? Isso foi uma escolha. Tomar esse grande presente, que é a Vida, independente de qualquer coisa, é uma escolha pela saúde emocional, mental e espiritual que se refletem automaticamente na saúde física e social.

E como música é saúde e harmonia, mais fácil é resgatá-la através dos sons e músicas que resgatam nossa história; resgatam a nós mesmos. A música é tão humana e potencialmente divina que ela “desce” com você aonde você estiver para resgatá-lo. E isso fica em um trecho de música que a paciente traz no decorrer do processo musicoterapêutico:

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu “prossiga” … É bonita, é bonita e é bonita..”

*Como se pode perceber a palavra para se descrever a Vida foi “transformada” no decorrer do processo: de “Miserável” à “Bonita”.

Nesta música, Rita ‘troca’ a letra da música original. Onde seria a palavra repita ela diz prossiga. Quando isso acontece, na Musicoterapia, chamamos de “Canto falho”. Termo oriundo da expressão “Ato falho” de Freud: Quando um paciente troca uma palavra, ‘sem querer’, no momento de sua expressão. É preciso ‘ouvir’ essa palavra, pois ela pode dizer algo, mesmo que a própria pessoa não esteja consciente disso. É uma forma de se auto-conhecer.

(2009)
Mt. Adriana Silvestre

 

 

Foto: Uma das sessões de Musicoterapia, com Rita, em 2009.

(Recriação** da música: “Encontros e Despedidas” – Maria Rita):

“..A hora do encontro é também despedida. A plataforma desta estação é a vida…”

** Recriação : Uma das técnicas da Musicoterapia, onde o paciente canta da sua forma, livremente, a música de sua escolha e sentimento no momento.