Musicoterapia na Educação Especial

 

  Do Silêncio ao Som – Relato de um caso especial  

O novo ‘pacientezinho’ entra na sala de Musicoterapia.. Cabisbaixo, olhares de lado, mãozinhas para trás, passos pequenos e laterais… Aproxima-se de um instrumento percussivo, coloca a mão, tira. Vai ao teclado, toca um pouquinho, disfarça um sorriso. Aproxima-se do violão, experimenta o som.. Sem palavras, somente gestos e curtos olhares. Nenhum contato corporal. Qualquer pergunta a ele direcionada é respondida pelo corporal do movimento da cabeça: o ‘sim’ e o ‘não’, apenas.

É um primeiro contato, uma avaliação em Musicoterapia. O paciente é da Escola Especial, indicado pela professora: “Ele não fala”.
Por parte da Musicoterapia não se consegue nenhum contato pessoal com a família do garoto. Não se preenche, assim, a “Ficha musicoterápica” (Dados sonoro-musicais de sua vida) e muito menos a pequena “Anamese” (Dados biológicos e psicológicos de sua vida, seu desenvolvimento em geral). O pai avisa da dificuldade do encontro, por trabalhar tantas horas e cuidar dos oito filhos sozinho, uma vez que a mãe não está mais entre eles, fisicamente.
Isso é tudo o que se sabe. Da ausência físic da ‘mãe’, do trabalho do ‘pai’, da quantidade de ‘irmãos’ e da dificuldade de expressão. Foi assim indicado à Musicoterapia. O garoto que vamos chamar de ‘Leandro’ (nome fictício) têm 6 anos e diagnóstico de Deficiência mental leve; mais tarde percebido como “Mutismo seletivo”, de acordo com o CID-10, onde a criança fala em determinados lugares ou com determinadas pessoas e em outros momentos atua como se nunca falasse.
O Encontro:

Os encontros prosseguiram daquela forma inicial: eu aqui, você ali, o instrumento lá; mãozinhas para trás. O olhar começa a buscar contato. Do teclado ao violão, um sorriso. Na passagem dentro da centopéia (brinquedo comprido em que a criança passa dentro como um túnel) e nos esconderijos, uma busca: Renascer.

Dentro da centopéia o corpo em posição fetal brinca de balançar, um acalanto da musicoterapeuta, um sorriso de Leandro, um contato visual, um renascimento, um encontro, um abraço… um ‘seja bem-vindo’, uma cócegas e uma gargalhada! Uma gargalhada, um som de Leandro, que já não conseguia mais ‘segurar’ sua expressão, que estava ‘sem querer’ sendo trabalhada e desbloqueada. Um abraço! Um rodopiar pela sala, um contato, um acalanto, uma ‘gestação’… Sons guturais (vocal primitivo, primeiros sons do bebê), um renascimento.

Chega-se à 6ª (sexta) sessão. (Os encontros eram realizados uma vez por semana durante 30-45 min) Esta sessão, de forma lúdica parecia acontecer como a maioria das vezes, um esconde-esconde. (A musicoterapia recebe o paciente como ele chega e trabalha-se a partir disto. Nada é por imposição do terapeuta.) Percebendo-se uma brincadeira de esconder a musicoterapeuta pergunta, umas vezes de forma musical e outras verbal: “Onde está o Leandro”?! E para o espanto/alegria da Musicoterapeuta, ele responde: “Tô aqui!”, em alto e bom tom. Uma dicção perfeita, digna do aplauso de um fonoaudiólogo. A musicoterapeuta, não sabendo se sorria, se parava ou se demonstrava tamanha alegria que sentia por dentro, simplesmente continuou a “brincadeira” como se aquele som que ela ouvia fosse perfeitamente normal, até para não cortar o sagrado processo de expressão e desbloqueio que acontecia.

E a partir daí em todas as próximas sessões Leandro se expressava de forma verbal, corporal e musical. Já podia pedir seus cantores preferidos, já se permitia cantar e dançar de forma mais abrangente e expressiva. Mesmo na Musicoterapia abria livros e dizia os seus conteúdos expressos em figuras. (A professora ainda não ouvia a sua voz e não sabia desses conteúdos que ele possuía; mas já disse que ele começou a se expressar verbalmente com os coleguinhas; no início longe dela e depois próximo a ela.) *
No decorrer das próximas sessões, assim como Leandro se desenvolvia, os objetivos da musicoterapia também se ampliavam. Ele começava, assim, a se expressar e verbalizar fora da sala de musicoterapia também, aos pouquinhos e sempre, em um processo único e individual. Um processo de confiança, vínculo, afeto e expressão: um processo Musicoterapêutico.

* A professora possuía uma postura de bastante autoridade e severidade. Leandro precisava naquele momento de uma postura de maior acolhimento, segurança e muito amor; principalmente neste aspecto do feminino – ligado à mãe. Mas como todo trabalho interdisciplinar, essas questões foram levantadas entre os profissionais, para o melhor desenvolvimento do aluno.

 

Quando eu soltar a minha voz por favor, entenda que, palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando... Quando eu abrir minha garganta essa força tanta; Tudo que você ouvir esteja certa; Estarei vivendo”…  (Música de Gonzaguinha – “Sangrando”)

 

(2006)

    Mt. Adriana Silvestre