Dia das Mães sem a presença da Mãe,

Como fazer?! 

Nesta época de comemorações festivas relacionadas ao dia das mães ou pais sempre surgem angústias nos pais, responsáveis, escolas e instituições; onde é comum o histórico de crianças que estão afastadas do convívio dos pais biológicos por algum motivo (óbito, entrega à adoção ou mesmo retirados da família devido a alguma negligência).
É muito compreensível essa angústia tanto por parte dos pais, escolas e crianças, porém existem ferramentas hoje e formas de olhar por meio da Educação Sistêmica em que é possível um olhar de solução à essas questões. A solução não externa, no sentido de acabar com as festividades, nem mudar a história da criança, mas sim uma solução interna, em que é possível auxiliar a criança a se permitir um olhar compassivo ao seu passado e de concordância e presença em relação ao seu presente, e assim, o futuro terá chance de existir; na verdade um eterno “presente”.
 Por isso, o meu amor e admiração à essa abordagem, que auxilia escolas, pais e professores a lidarem com essa situação de forma amorosa e compassiva, onde TODOS (família de origem e família atual da criança) possam fazer parte. No final todos são amplamente beneficiados e o coração das crianças aliviados.
Indico o livro de Hellen Vieira, pedagoga sistêmica, que toda escola deveria conhecer e aplicar com os alunos. Ensina a usar um material que pode ser  contruído ou imaginário, chamado de “fio invisível” que liga o coração do filho aos pais (pais que deram a vida) e também aos pais que acolheram. Um não exclue o outro e todos são de extrema importância para a criança. Assim a criança pode ser completa e plena em sua história.
Sobre mães ou pais abusivos existem outros exercícios que podem ser feitos, como o de usar um pote pra representar ou um potinho imaginário, onde nele podem ser colocados tudo o que é dos pais e que os filhos precisam devolver pra eles, com respeito e sem julgamento. Devolver o fato de não ter estado presente, o fato do envolvimento com drogas, a agressividade e o fato de ter-lhes entregado para adoção e etc.. e depois imaginar outro pote, onde eles recebem dos pais o que eles conseguiram dar: o fato do pai ter encontrado a mãe (pra ele existir), a mãe tê-lo segurado 9 meses na barriga, o parto… (apenas aí essa mãe deu bastante, nós mulheres sabemos como é!), os primeiros cuidados, ou mesmo o fato de ter entregado para alguém que a criança ama hoje (a avó), instituição ou a pessoa ao qual a criança está sendo cuidada no momento..(cada caso é específico). E então a criança sente recebendo tudo isso. Fora o desejo que esses pais (mesmo imperfeitos, como todo ser humano na terra) deseja pra essa criança.. Receber isso é receber a vida em toda a sua plenitude e amor; e junto vem todo o sucesso na vida, alegrias sem fim e realizações. As instituições não tem noção do quanto ajuda uma geração com essas percepções.
Atendo muitos casos semelhantes onde trabalho (adolescentes privados de liberdade que cometeram algum ato infracional) e existe um caso parecido com essa questão. A adolescente não gostava do dia das mães, pois remetia inúmeras questões e dores, além de muita raiva. A mãe tinha dificuldades com drogas , envolvimentos e suicidou quando ela ainda amamentava. E a adolescente sentia muita raiva por isso. Como, realmente, iria cantar em uma homenagem às mães se ela “não estava presente”, fora o “ódio” que sentia dela? Acontece que ela se percebeu na mesma situação da mãe: envolvida com drogas, atos infracionais e acabando com sua vida. Será que estava “melhor do que a mãe que ela tanto julgava? Não, estava igual ou pior.
E então pôde perceber que o ódio que sentia no fundo era amor, que a fazia ainda trilhar o mesmo caminho. Percebeu por meio de um novo olhar que a mãe lhe deu apenas o que conseguiu lhe dar e então lembrou de um aspecto que pra ela era significativo: que seu pai disse que antes dela morrer ela olhou para ele e pediu com gestos de acolhimento nos braços, para que ele cuidasse da filha; ou seja, a adolescente percebeu o amor que existe da mãe pelo filho, mesmo que esta o entregue para outro, muitas vezes escondendo uma baixa auto estima (ou mesmo uma repetição familiar mesmo) considerando o outro “mais capacitado” do que ela mesma no cuidado do filho.
E nós julgamos essa mãe e “ensinamos” as crianças na escola a julgarem também, sem saber que isso só gera resultados ainda piores para a criança, sua vida e as pessoas à sua volta.
Voltando à história citada: Essa adolescente cantou lindamente na última apresentação para as mães, uma canção que ela trouxe e a homenagem foi para SUA mãe, que está presente sim, dentro de seu corpo, faz parte de suas células, de sua história, de sua vida.
É isso que precisa ser trabalhado com as crianças. Isso é reconexão e cura. E ao contrário do que pensamos, é muito fácil e rápido a assimilação para eles, pois é verdadeiro, é real, além de curativo. E quanto às lembrancinhas, às histórias que não se sabem.. São uma oportunidade de serem trabalhadas todas essas questões por meio da verdade dos fatos (sem julgamento) ou da imaginação de como deve ter sido. E as lembranças podem ser feitas, desenhadas e entregues pelo coração, queimadas com a intenção de chegar ao destino, ou repassadas à alguém presente hoje na vida da criança, sabendo que ambas: a mãe de origem e a mãe que cuida merecem essa homenagem, essa gratidão e esse amor.
Se ensinamos o amor às nossas crianças, ensinamos tudo. E  ajudem as crianças a lembrarem: Quanto mais pessoas cabem no nosso coração melhor a gente fica. Quanto menos, pior e mais vazio a gente fica.
“E tenho certeza que nesse coração tão pequenino cabe o mundo inteiro, não é verdade”?!..
As crianças são puro amor. Vamos ajudá-las a relembrar disso..
Adriana Silvestre
Musicoterapeuta & Consteladora Familiar
Criadora do canal educativo para pais e filhos no YouTube: “No Mundo Mágico da Ananda”
*O livro citado faz parte da coleção: “As aventuras da professora Tina – o coração e o fio invisível” , de Hellen Vieira da Fonseca. Página do Facebook: Pedagogia Sistêmica Brasília – Brasil
https://www.youtube.com/channel/UCVL0VtjvXwxBpiDQzQGeQIw
Mostrando o livro, por Luciana Rodrigues: https://youtu.be/Zk2ZAIQJDQc

 

Adriana Silvestre

Abril 2019

//Obs.: A foto é ilustrativa, retirada da internet//