Desabafo: Pelo direito ao luto na maternidade 

                                                                                          Por Adriana Silvestre

 
Quando foi que o hospital se desumanizou? Na verdade, quando ele foi humano? A questão é: A equipe está tratando apenas com um corpo sem vida e sentimentos ou com pessoas?
Falo isso pois já basta de tamanha desumanização, da falta do olhar e respeito ao outro. E o outro é o paciente, uma pessoa que não apenas tem um corpo, mas também sente, ((não apenas dor corporal)), mas dores na alma, que não são ouvidas, muito menos respeitadas.
Falo isso pois já presenciei com amigas e pessoas próximas, especialmente em maternidades, onde nasce a vida e também existe a morte. Mas as pessoas / profissionais não sabem lidar com a morte. Depois que morreu “é só um corpo”, pode ir pra lata de lixo, levar pro IML.. “Pra quê a mãe quer ver seu bebê morto?” .. 
 
Pra despedir, pra sentir, pra chorar.. Não importa, o bebê é dela, e é um direito dela ter acesso a ele! Mas as pessoas pensam que não, “vamos evitar essa dor pra ela”..
Mas já tá doendo!! E se pegar, se sentir, vai ajudar que a dor realmente passe. Se não tocar, não sentir, vai ficar além do vazio da perda naquele momento mais um vazio da falta de ter tocado, sentido, olhado!
E olha que isso faz parte do corpo: “Matéria, 5 sentidos”, que estudamos na escola e os profissionais de saúde deveriam saber. Mas não sabem, pois ninguém lhes ensinaram.
 
Tiramos 10 em biologia e 0 em empatia, pois essa matéria não existe na escola. E precisava existir. E se não tem, vamos criar! Vamos ensinar pelo menos aos nossos profissionais de saúde que é importante o Luto. O luto não só depois, mas na hora mesmo! O momento que não volta mais e que é crucial para a saúde mental e física do paciente, pra evitar que o paciente volte àquele hospital com outra doença, iniciada lá dentro mesmo, quando foi-lhe impedido o direito de se despedir de uma parte que é sua!! Mas ninguém vê, não sabem a importância disso.
Cadê os profissionais de saúde integral do ser humano nessas horas? Tem médico, cirurgião, anestesista, pediatra, mas não tem um psicólogo ou musicoterapeuta, ou um ser humano qualquer que olhe para o outro ser humano que está em luto e lhe diga que tá tudo certo sentir isso e que pode ter um tempo a sós para se despedir. Uma despedida de 10 min ou 1 hora, que muda toda uma vida!.. Mas não tem tempo pra “isso”, o carro do IML tem que buscar outros corpos.. E por aí vai..
O que tem mais valor? O que é essencial? O que não pode realmente esperar? Que volte esse carro outro dia! É um direito da mãe se despedir de um filho que viveu por meses na sua barriga e por anos em seu coração! É o mínimo que devemos à essa mãe que não vai mais segurar esse filho. É pedir muito? Não, é um direito, que é arrancado de nós por não sabermos a importância desse momento. Não, não sabemos. Somos ignorantes, muito mesmo. Ignorantes de conhecimentos da alma, enterrados em um corpo que pensamos ser tudo o que temos.. Q triste ilusão.. E quem sofre somos nós, pacientes que não tem vez, nem voz.
Espero que isso um dia possa mudar, que o outro possamos olhar e permitir que viva o que precisa viver, seja em casa ou em um hospital. Que o hospital sirva não só pra salvar os corpos e suas vidas, mas que possam acolher almas, aquelas mesmas que dão vida aos corpos. Elas são importantíssimas, mas esquecidíssimas, desvalorizadissimas.
Eu quero fazer a diferença no mundo, se você faz a sua parte já é o bastante: Pela humanização e o direito de luto nas maternidades!..
Meus sentimentos por todas as mães que não puderam tocar seus filhos, e não puderam expressar sua dor (anestesiadas e dopadas). Que hoje você possa olhar pra isso e ressignificar. Possa trazer sua criança para os seus braços de Amor e chorar. E despedir, e agradecer pelo tempo que esteve com você. Não é a toa, nunca é. Algo Maior move tudo e você é mãe, mesmo quando sua criança não sobrevive. É só sentir na brisa leve do luar, nas asas da borboleta, o seu filho a brincar. Ele continua e você também. Leve ele e o destino dele em seu coração. Só assim, a vida se tornará mais Leve, também..
Estamos em “Novembro roxo”, da “atenção à prematuridade”, e quando teremos a “atenção à mãe e ao bebê natimorto”? Quando teremos o mês da humanização, da expressão dos sentimentos sem medo nem reservas, pela saúde integral do ser humano?!..
Estou esperando este mês tão lindo, esperando esse dia.. que Quem sabe um dia.. virá?