Da “Morte à Vida” –Relato de uma viagem interior

(Um caso de Depressão e Pânico)    

Este é um pequeno artigo baseado em um caso, mais especificamente uma sessão, em que foi permitido à paciente um mergulho em suas próprias imagens interiores. Através desse mergulho pôde ser trazido à luz questões essenciais, um novo olhar, a grande mensagem oculta atrás de sintomas depressivos e de pânico associados.

Daremos o nome à paciente de Karen ( nome fictício) – A mesma permite o relato de sua sessão através desse artigo. (Todos os artigos aqui encontrados foram assim permitidos). É a segunda sessão, nosso segundo e último encontro.

Karen tem 38 anos, casada, um filho. Boa relação com a família de origem e atual. Diagnosticada com depressão e transtorno de pânico. Em sua primeira sessão foi percebida certa “revolta” em relação à morte, que “leva as pessoas que a gente ama..” Durante a mesma sessão percebeu a magnitude e importância deste tema e o quanto somos pequenos frente a tudo isso.

É a terceira filha (caçula). Tem um irmão mais velho e outra anterior a ela que morreu precocemente aos 7 meses de vida.

Relata sentir falta do aconchego da mãe. Pôde perceber através do trabalho suas possíveis dores e dificuldades em lhe dar colo após a perda da irmã anterior e “como somos exigentes e egoístas em alguns momentos quando não sentimos realmente o que se passa no mais profundo de cada um”, afirma.

Relata, ainda, ausência de objetivos e metas na vida (movimento ‘inconsciente’ de morte), um sintoma de depressão.

Voltamos, assim, à nossa segunda sessão. Nesta sessão a paciente traz a queixa do medo e o desejo de viver sem ele; sem o pânico, propriamente dito.

 

Foi utilizada inicialmente uma técnica de interiorização, relaxamento (sem som); passamos para a musicoterapia (canção trazida por ela) e assim, surgem sensações e imagens (estado de hipnose – ericksoniana) que foram trabalhadas através das percepções da constelação familiar.

Karen cantarola, assim, a melodia de uma música clássica (“Pour Elise”) e traz junto com a música a sensação de medo. Lembra a sua infância, quando a música era tocada em forma de sino no colégio. A paciente se vê (através de imagens/lembranças interiores) no pátio deste colégio, aos 5 anos de idade e descreve a mesma sensação de medo, solidão. Pátio grande, muita gente, porém só.

Foi pedido à Karen que desse uma forma a esse medo. Ela então visualiza uma forma feminina, grande, em frente a ela, tão pequena.

Acontece, assim, um diálogo dessa criança com seu medo e tudo o que ela pede é que a deixe em paz… “Por favor, vá embora..”, Karen diz baixinho; porém, ela mesma não conseguia deixá-la.

Como Bert Hellinger (criador das constelações familiares sistêmicas) percebeu, nossos sintomas são apenas mensageiros de algo, uma mensagem que apenas precisa ser lida. Karen pergunta ao medo qual a sua mensagem: “O que você quer me mostrar?”. Porém o medo apenas a aterroriza, ainda mais, dizendo à mesma que ela não iria conseguir…

Foi pedido à Karen, então, que colocasse nesta imagem algo para representar a Vida, seus pais e a Morte. Karen visualiza uma forte luz azul ao seu lado esquerdo como a Vida; seus Pais atrás dela mesma, e a Morte  se posiciona à sua frente, tomando o lugar do Medo (que se coloca, agora, ao seu lado direito.)

A morte, segundo ela, tinha um aspecto sombrio. Foi pedido à mesma que colocasse nesta imagem todas as pessoas que já haviam falecido (todas aquelas que fazem parte da sua história, da sua família, conhecidas ou não). *Bert Hellinger percebeu que na maioria das vezes o nosso movimento de morte (depressão) nada mais é que um amor oculto, uma saudade de alguém importante, significativo, que já se foi (conhecidos conscientemente ou não)

Karen vai colocando essas pessoas em sua imagem e percebe em seu corpo certo relaxamento e emoção quando dentre elas se destaca a sua avó (parte de mãe), que havia falecido quando ela tinha uns 4/5 anos (exatamente a idade em que a mesma se visualizou nesse contexto, a partir do tema trazido: medo/pânico).

Foi um encontro de grande intensidade. Ela pôde por um momento reencontrar essa avó em seu interior, receber um pouco do seu colo, abraço e aconchego… Sente-se bem, se emociona; porém, logo visualiza seus pais, seu filho e seu marido juntos, ao lado da Vida, e percebe que eles a chamam de volta. Sente que deve fazer esse movimento (de volta à vida) e também sente a bênção de sua avó para isso, para que retorne à vida, à sua família atual. E que “no tempo certo” todos vão se reencontrar novamente, sem pressa.

Assim, Karen, em sua imagem, se despede de sua avó. Relata sentir tristeza ao deixar pra trás tantos que ela ama; porém, opta por voltar à vida e à sua família, que a recebe com alegria, de braços abertos.

Ao retornar da “viagem” relata sentir-se mais leve e se expressa através de um sorriso, ao final.

Foi um processo muito profundo e “tenso” como a mesma relata; e ao retornar dessas percepções sente bastante o corpo, a vida em seu corpo (inclusive dor física), como se acordasse, como se o seu corpo acordasse à vida que habita nele.

A opção de vida e morte fica com ela; não precisamos saber qual a sua escolha mais profunda, qual caminho realmente seguirá. Qualquer que seja este caminho, está certo. O importante é a percepção de que nossos sintomas têm sempre uma mensagem e sempre um Grande Amor por trás, e se tomamos consciência disso podemos mudar positivamente a nossa forma de ver o mundo, nosso destino e nossa relação com as pessoas à nossa volta.

*Karen continua sob acompanhamento psicológico e psiquiátrico até o momento da construção desse artigo. Relata ter sido importante e significativo esse processo de busca de solução, a causa de seus sintomas, que nada mais era que um grande Amor; um amor cego, que agora pôde enxergar, e quem sabe, se curar.

Obs.: Outro paciente foi atendido trazendo a mesma queixa (Pânico e Depressão). Foi trabalhado também através de imagens interiores com Constelação Familiar. Foi atendido, de forma interdisciplinar com Reiki e Auriculoterapia, com algumas sessões. Após um tempo, paciente relata a diminuição de seus sintomas, ficando até  longos periodos sem os mesmos. Descobriu novas formas de lidar com os sintomas, de forma preventiva: Diminui o excesso de  trabalho, pratica técnicas de respiração, aumenta o contato com a natureza, volta a tocar o seu violão. Relata nunca mais ter tido necessidade de  ser hospitalizado por motivo das crises. Não necessita mais da medicação para o estômago e nem para dor de cabeça. 

***É importante lembrar que o trabalho em Constelação Familar e Musicoterapia é apenas algo a mais, dentro do tratamento completo do paciente. Em nenhum momento é indicado diminuir a medicação. Apenas o médico pode prescrever algo nesse sentido, se necessário for. É muito importante o acompanhamento multidisciplinar, como um todo.

(2013)

Mt. Adriana Silvestre