Constelação Familiar integrada à Musicoterapia: Da Ordem à Harmonia 

A Musicoterapia é uma terapia auto-expressiva em que são utilizados instrumentos musicais, som, corpo, música como forma de autoconhecimento e busca de uma melhor qualidade de vida.

A Constelação Familiar, segundo Bert Hellinger, traz percepções sobre ‘para onde’ ou ‘pra quem’ nossas dificuldades olham (amor oculto) e nos mostra formas/posturas em que esse amor  possa ser transformado (amor que vê) para que assim, nossas dificuldades possam diminuir ou deixar de existir em nós quando nos percebemos e nos re-colocamos em nosso lugar em relação à família e ao mundo. Foi percebido que nossas doenças e dificuldades são apenas mensageiros de algo (uma mensagem) e quando esta é lida/percebida,  o mensageiro (doença/dificuldade) pode ir embora ou então minimizar sintomas. Isso dependendo de cada um, de sua vontade e mudança de postura que for sentida e percebida como necessária em relação à questão/tema trazido, Sempre em busca de uma percepção, uma imagem de solução.

Juntos, o trabalho de Constelação Familiar e Musicoterapia, tanto em, grupo quanto individual buscam trazer percepções claras e profundas, em busca dessa imagem / melhor postura de solução. Por isso, muitas vezes não são necessárias muitas sessões para se trabalhar um caso. Em apenas uma sessão pode ser percebido algo essencial e o cliente, assim, fica livre, em sua força, para continuar o seu processo de transformação interior, o que afeta, positivamente, o seu exterior. (Tudo isso, lembrando, depende exclusivamente da vontade e postura do cliente em relação ao que foi observado) E independente de qual postura ele tome, está certo. É papel do terapeuta apenas estar junto ao cliente e ajudar nessas percepções, mas nunca em suas decisões.

Bert Hellinger, o criador das constelações familiares, percebeu Leis, que querendo nós ou não (independe de nossa vontade) regem as famílias. Uma dessas leis é a Lei da Ordem ou Hierarquia. Uma lei simples, que preza o seguinte: “Quem veio primeiro, veio primeiro. Quem veio depois, depois.” E cada um precisa ser respeitado em seu lugar, para que haja harmonia na família.

Um exemplo: Em uma família chegam primeiro os pais juntos e depois o primeiro, o segundo, o terceiro filho… (Isso inclui as crianças que viveram pouco ou mesmo não chegaram a nascer – aborto espontâneo ou provocado) Cada um tem seu lugar de direito na família, e assim entra a Lei do Pertencimento, onde ninguém pode/consegue substituir ninguém,e ninguém é melhor ou tão pior que não possa pertencer ao núcleo familiar. Quando acontece qualquer que seja a exclusão (Exemplo: quando uma criança que viveu pouco ou um aborto não são lembrados – muitas vezes não são lembrados para evitar reviver uma grande dor), assim, a Ordem fica alterada, e consequentemente, a harmonia na família fica prejudicada, através de brigas, um adoecimento, depressão ou falta de sucesso na vida em algum dos membros da mesma. Isso tudo acontece de forma ‘oculta’ dentro de cada um, pois mesmo que uma criança não saiba conscientemente da existência de um dos irmãos, de alguma forma muito profunda todos estão conectados, através de um Amor maior, e nada pode ser escondido da Alma da família, que inclui e ama a todos da mesma forma.

Assim, a ordem e, consequentemente, a harmonia só se restabelece entre todos quando cada um retoma ‘o seu lugar’ na família.  Às vezes (também por um ‘amor oculto’) uma criança queira se colocar no lugar da mãe, para cuidar “melhor” do irmão. Ela ‘pode’ fazer isso, se quiser, através de suas ações e posturas, porém isso fica muito ‘pesado’ para ela, pois realmente não é o seu papel, o seu lugar.

Era o que acontecia com Débora (nome fictício), 35 anos, casada, psicóloga. (Todo terapeuta deve fazer a sua própria terapia, para o seu próprio bem e de seus pacientes também). Trouxe a queixa de cansaço, sono muito leve (dificuldade de chegar ao sono restaurador), atualmente separada. Já passou por vários outros tipos de abordagens psicoterapêuticas e gostaria de conhecer esse novo trabalho.

Trabalhamos inicialmente com a técnica da constelação familiar individual com figuras. No caso, utilizamos os instrumentos musicais no lugar dos bonecos comumente utilizados para o trabalho de constelação familiar.

Foi pedido que montasse a sua família de origem, um em relação ao outro, tendo como representantes os instrumentos musicais.

Foi colocado, assim, os representantes da esquerda para a direita: o pai (prato), a mãe (kabuletê), deixou um espaço vazio e colocou o irmão mais novo (guizos coloridos). Tinha se esquecido dela mesma e então colocou um representante para ela (caxixi) em frente a todos os outros representantes, como se olhasse para eles.  A imagem fica assim:

A  cliente relata: “Eu fico aqui , pois assim consigo ter uma visão mais ampla, dá pra captar todos”. Foi perguntada sobre a sensação em seu corpo, ao se ver nesse lugar e a mesma relata sentir um peso muito grande e se emociona ao perceber a quanto tempo tem estado nesse lugar, tentando controlar, tentando “ajudar”, enquanto o seu real lugar estava desocupado, aquele espaço vazio entre a mãe e o irmão que ela deixou, o seu lugar de filha, a primeira filha, apenas.

Bert Hellinger percebeu exatamente isso em relação à lei da Ordem / Hierarquia. Quando alguém na família está fora de seu lugar (seu lugar na ordem) a sensação frequentemente é de Peso, como se carregasse o mundo nas costas.

E era exatamente isso que Débora sentia. Ela estava fora da ordem. Por amor (oculto),quis  cuidar do irmão ‘melhor’ do que a mãe e se viu envolvida emocionalmente em questões ligadas ao relacionamento dos pais, desde criança. E isso tudo foi percebido como muito pesado pra ela. Qual é o seu papel? Qual é o seu lugar, senão voltar àquele espaço vazio, que ela mesma deixou lhe esperando? E assim, Débora fez, através do movimento de seu representante (caxixi), voltando, assim, ao seu lugar. Sente, consequentemente um alívio. Suspira profundamente.

A nova imagem fica assim:

 

É como se em sua alma surgissem essas palavras: Ufa..! Aqui é o meu lugar, só de filha, de primeira filha. Minha mãe e meu pai são grandes, eles se resolvem e seu entendem, não é meu papel tentar “ajudá-los”, nem cuidar do meu irmão por eles. O meu papel é tomar a vida que veio deles, do jeito que foi, vivê-la o melhor possível e passar isso para frente através de meus filhos, meu trabalho, minha autorrealização; também em homenagem a todos e a tudo do jeito que foi, do jeito que é.

Essa é a melhor postura que foi percebida em relação aos pais. “Vcs são os pais certos pra mim. Eu tomo a vida do jeito que foi, que veio de vocês e concordo com isso. Os pais de cada um são os certos pra eles também. Uma Força Maior guia tudo e todos para o que deve ser e eu faço apenas a minha parte, no meu lugar”. Assim, (neste caso), concordo que meu irmão tenha a mãe certa pra ele também; ela é a nossa mãe, eu sou só a filha mais velha deles e irmã mais velha do meu irmão, esse é o meu lugar. E assim, eu posso deixar o que é deles (dos meus pais) com eles, com respeito, em relação às sua dificuldades/ opiniões e fazer apenas o melhor que puder com o presente que eles me deram: a vida. E assim,  posso “brincar” mais com meu irmão, e quem sabe, um conselho, mas apenas de irmã mais velha!

Isso foi percebido como essencial e a paciente relata sentir exatamente isso: “Agora eu quero o meu irmão perto de mim, mas não para cuidar e sim, para brincar” Cliente relata que eles sempre se divertiram muito juntos, mas agora de uma forma muito mais leve e especial, como tem sido atualmente seus dias.

Relata, em sua quinta e última sessão que tem dormido melhor. Sente como se um redemoinho (que relata como necessário) passasse e todos de assentassem no lugar, em Ordem.

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Da mesma forma poderíamos relatar diversos casos nesse sentido, como o de Carlos (nome fictício) , adolescente (17 anos) envolvido com drogas. Vem com o objetivo de parar o seu uso. (Atendido no Centro de Atenção Psicossocial). Foi trabalhado da mesma forma que o caso anterior.

Carlos monta sua família. Ele coloca, da esquerda para a direita o representante do pai, da mãe, o representante das drogas, ele e outros irmãos. O representante das drogas estava colocado como na sequência dos irmãos, anterior a ele. Então foi-lhe perguntado se ele sabia se teria algum irmão que sua mãe possa ter perdido, mas ele relata não ter conhecimento disso. Pedi pra ele colocar um instrumento para representar o “parar de usar drogas”, seu objetivo. Ele tira o representante das drogas e coloca o “parar com as drogas” no mesmo local. Ele olha atentamente à essa cena e ao ser perguntado qual o seu sentimento ao visualizar essa imagem ele relata se sentir muito triste. Assim, peço permissão a chamar a mãe, para que ela pudesse esclarecer algumas dúvidas sobre as questões dos irmãos. (A mãe, anteriormente tinha relatado de forma individual sobre perdas anteriores a ele -abortos- porém ela  não se lembra de tê-lo contato). Ela o contaria depois, mas como foi percebido a necessidade através do trabalho com o paciente, ela aceitou ser chamada e participar de sua sessão. A mãe conta ao paciente sobre essas crianças (2) anteriores. O paciente demonstra surpresa. Assim, colocamos esses dois irmãos antes dele.

O paciente suspira aliviado, sorri e olha sem parar a essa nova imagem, emocionado. O mesmo local onde estava a droga (o amor que adoece) e a Vida sem droga (o amor que cura) é o mesmo local que pertence a seus irmãos, sempre pertenceu. Antes, porém, esse espaço estava apenas vazio, e talvez, através de um amor oculto quisesse ser preenchido, ou seguido de forma inconsciente “Eu vejo você, Eu sigo você” na morte também (passando pelas drogas). Assim, através dessas percepções, Carlos pôde voltar, conscientemente ao seu lugar de terceiro filho (Não mais o primeiro). Esse lugar de primeiro e segundo pertencem a seus irmãos mais velhos, que apesar de não terem se conhecido, nem brincado juntos, serão para sempre ligados por laços de amor.

Carlos fica mais tempo olhando à essa nova cena, retomando seu lugar, integrando dentro dele esses irmãos, que por mais estranho que pareça, ele sente muita falta, e que de alguma forma apenas quis trazê-los de volta ou ir a seu encontro, tendo as drogas como parceira nesse processo. Mas as drogas, assim como qualquer doença ou dificuldade só queria lhe mostrar algo: o Amor e a falta (vazio) que ele sentia de seus irmãos. Mas agora ele pôde incluí-los na família, no seu coração e isso o trouxe uma força muito especial. E assim, ele poderá seguir, com seus irmãos, no seu lugar e sem drogas, se assim ele realmente quiser. No final, Carlos relata que sempre sentiu, desde pequeno que tinham mais duas pessoas na casa. Relata também, ter sonhado, na noite anterior ao nosso encontro, com dois bebês.  Lembramos que esses irmãos morreram pequenos, antes de nascer, porém, eles serão sempre maiores em relação a ele. Aqueles irmãos mais velhos que talvez ele “sonhasse” em ter ele  agora percebeu que realmente os tem, de uma forma muito especial.

Durante esses trabalhos deixamos também que o paciente traga uma canção que venha de sua alma, para ele mesmo, para alguma situação ou para algum membro da família e isso geralmente traz uma emoção e percepções desse Amor que existe dentro de cada um. (mesmo que pareça o contrário , como a raiva- que nada mais é que uma forma de  amor distorcido.)

Que cada um possa perceber seu lugar, dentro de sua família e no mundo e assim, viver; se não melhor, pelo menos de forma mais leve, aqui, na vida, enquanto ainda for o nosso tempo…

 

Assim como cada nota tem seu lugar na escala musical, cada pessoa tem o seu lugar na família e no mundo. 

  Mt Adriana Silvestre

 (2013)