Automutilação na adolescência

Relato de atendimento a uma adolescente privada de liberdade    

Kátia (nome fictício) é uma adolescente de 16 anos, no momento cumprindo medida socioeducativa de internação devido a ato infracional cometido.

Está há poucos dias internada e demonstra muita ansiedade em ser liberada, pois segundo relata não consegue fcar afastada da minha mais nova, por muito tempo: “Ela é tudo pra mim, ela me dá forças”, referindo-se à irmã caçula de 8 (oito).

A adolescente, muito agitada, conta um pouco a sua história e assim é percebido como se apegou tanto sua vida e força à irmãzinha. Quando Kátia tinha 6 (seis) anos o pai faleceu e aos 7 (sete) a mãe a deixou em um orfanato com a irmã menor, na época com 1 ano de idade. Já foram criadas pela avó materna, mas segundo informa, o conselho tutelar decidiu pela institucionalização, uma vez que a avó não tinha condições desse cuidado. A partir desse momento, só existiam as duas. A pequena passou a chamar a maior de Mãe e a Maior passou a sentir –se em segurança  (de afeto e presença) quando a pequena lhe disse: “Eu nunca vou te abandonar”.  A partir daí, além da angústia e dor da separação do pai e da mãe, ficou também o medo de separarem agora a única que lhe restava e que tinha “certeza” que lhe amava: sua irmãzinha.

Porém aconteceu um fato (Uma tentativa de agressão, que ficou como tentativa de homicídio)em que a adolescente veio a ser apreendida. E o mais temido por ela aconteceu: a separação da irmã.

E aqui, em um atendimento informal, se encontrava a adolescente relatando toda a sua história. Relata a volta da mãe, após 7 anos de separação e a sua frieza em relação à mesma (Bert Hellinger explica essa situação como um Movimento Interrompido em relação à mãe, em que depois da angústia, tristeza e dor da separação, a criança se fecha no retorno à mãe, pelo medo inconsciente de sofrer de novo) – E este movimento, se não trabalhado, podem gerar diversos sintomas, tais como depressão; dentre outros.

E era isso o que estava acontecendo com ela: Um desejo intermitente pela morte. E em seu corpo estava desenhado as marcas dessa obsessão: riscos nos braços e coxas, de automutilação, que eram frequentes, segundo ela, além de diversas outras tentativas de suicídio. Kátia conta como a dor de sua alma era aplacada pelos cortes que fazia nela mesma. Era uma forma de sentir a dor no corpo, que ainda não era maior que a do coração, mas que segundo ela, gerava alívio imediato.

Foi-lhe perguntado sobre os irmãos e ela citou 4 (quatro) que estavam na vida: dois mais próximos, sendo um anterior a ela e a posterior, a caçula. O mais velho nascido apresenta distanciamento da família devido à dificuldades  no relacionamento com a mãe. A outra irmã, não foi conhecida, apesar de saberem o nome, devido ao fato de ter sido um caso extraconjugal do pai.

Quando perguntado sobre os que não nasceram ela relata que foram vários, uns 8 (oito), dentre abortos espontâneos, natimortos e mortes precoces com poucos dias de vida, todos anteriores aos nascidos.

A partir de toda a história contada, ainda existia o fato de Kátia ter sido abusada pelo padrasto (pai da caçula) dos 4 aos 7 anos de idade, até o momento de  ter sido levada  ao abrigo, pela mãe. E todas essas histórias pareciam se misturar em um aglomerado de questões  que não parecia haver solução. Porém lhe veio um desejo: “Gostaria de unir toda a minha família”. Foi aí que tivemos a ajuda dos “bonecos” em cima da mesa para representar os seus desejos, o seu olhar. Foi lhe pedido, assim, que colocasse representantes para si mesma, sua mãe, seu pai, seus irmãos e avó; além de um representante para a MORTE: que ela colocou em sua frente olhando para ela. Foi pedido então um representante para a VIDA. Ela colocou a vida em cima do representante da morte, e na visão geral da imagem, a vida parecia olhar acima dela, para todos que estavam atrás dela, especialmente, seus pais. E foi aí que começamos o nosso olhar, o desenrolar dessa grande teia de emaranhamentos.

Usamos a técnica de visualização, onde a adolescente se colocou em postura sentada e relaxada, com os olhos fechados e a atenção voltada ao ponto médio entre as sombracelhas (o “olho da alma”). Nesse processo foi pedido que buscasse uma imagem de seu pai, o qual veio facilmente para a adolescente e além do pai vieram todos os irmãos não nascidos e com eles todos os seus antepassados. Em uma imagem que só ela mesma consegue descrever, Kátia sentiu-se amada novamente e reencontrou a sua verdadeira força, conseguindo despedir-se de seu pai, receber o amor e “conselhos” de seus irmãos e se reconciliar posteriormente com a mãe. Ela pôde ir para a morte (para os que estavam na morte) sem precisar morrer, e conseguiu voltar, percebendo aqui o seu lugar! Ela conseguiu olhar de onde estava (com os mortos) como seria se ela realmente tivesse morrido e pôde ver a dor dos que aqui ficariam: sua irmã, sua mãe e sua avó. E decidiu ficar. Por ela, pelos seus irmãos, pelos seus pais, pela avó e por todos os seus antepassados que a preencheram de amor. E então, ao retornar dessa “viagem” pôde também olhar ao seu agressor, deixando com ele o que pertence apenas a ele, para que possa assim, seguir mais leve e em paz, sem o peso de todos esses acontecimentos. E foi exatamente isso que Kátia sentiu: Leve e com um desejo em seu coração e em seu corpo, não mais pela MORTE e sim pela VIDA. Com expressão de leveza no corpo e um sorriso no rosto, declara: “Estou com uma vontade agora.. de VIVER!”

Obs.: Na imagem que a adolescente contemplou ela relata ter visto também uma criança, que ela sentiu como uma possível filha que ela possa vir a ter.

E assim, em poucas horas, podemos contribuir com a mudança de uma vida. Acolher a dor, ressignificar e olhar para o que precisa ser visto, tendo a certeza de que:

A “cura” de uma alma é a “cura” de toda a família.

Quando se muda a forma de olhar e sentir, muda-se todo um destino.

Adriana Silvestre

Abril 2019

//Obs.: A foto é ilustrativa, retirada da internet//