A Mensagem do Sintoma – Um caso de adolescente privado de liberdade  

O adolescente será chamado de João (nome fictício). Tem 16 anos e está há 9 meses cumprindo medida socioeducativa de internação, por ato infracional análogo a homicídio. Possui outras passagens por delegacia por atos infracionais análogos a roubo, tráfico de drogas e porte ilegal de armas. É a sua primeira internação. No centro de internação é atendido por diversos profissionais na área da saúde (enfermeiro, médico psiquiatra, assistente social, psicólogo, musicoterapeuta, educador físico, além dos agentes e educadores que asseguram seus cuidados diários relacionados à higiene, alimentação, convívio em segurança com outros adolescentes e direito a frequentar a escola dentro da unidade).

O objetivo do cumprimento dessas medidas socioeducativas é que este adolescente reflita sobre seus atos e consiga reintegrar à sociedade novamente, ressocializado. Nem sempre esse objetivo é alcançado, uma vez que depende de inúmeros fatores, muitas vezes maior do que toda a ajuda oferecida na unidade. Principalmente é necessário o desejo, juntamente com novas ações, que deve partir do próprio adolescente em conjunto com a sua família.

O atendimento musicoterapêutico acontece em forma de grupo ou individual, além dos atendimentos em constelação familiar, que são atendidos aqueles adolescentes que interessam em aprofundar em alguma questão particular, referente ao ato, sintomas, dificuldades ou à família. Foi quando o adolescente em questão pediu este atendimento e foi, assim, atendido de forma individual com constelação familiar integrada à musicoterapia.

No atendimento, João trouxe um pouco de sua história e durante breve relato ressoou significativo o sentimento “vazio”. O adolescente mesmo traz em sua fala que sentia um vazio profundo e tem consciência que buscava preenchê-lo através da busca pelas drogas e demais envolvimentos posteriores, que acabou culminando de forma não intencional em um homicídio de uma terceira pessoa, motivo pelo qual o adolescente cumpre essa internação.

Foi então que através dos bonecos usados como representantes foi pedido que ele pegasse um para representá-lo e outro pra representar esse sintoma “vazio”. Antes de posicionar esses bonecos o adolescente relata que sempre teve um bom relacionamento com o pai, mas sentia falta de mais contato, toque da mãe. Relatava, ainda que sentia que a mãe teria preferência sobre outro filho, irmão dele. Os pais são separados (atualmente vem juntos visitar o filho na unidade). Adolescente relata início de seu envolvimento após separação dos pais (12 anos de idade) e desejo de união da família novamente. E após seu relato, diz que que precisa de uma companheira, esposa e acredita que essa pessoa irá preencher esse vazio que sente. Foi-lhe dito que uma pessoa quem vem de fora para um relacionamento de casal possivelmente não conseguiria preencher esse vazio sentido por ele. Que ele precisa estar “inteiro” para encontrar outro “inteiro” no intuito de partilharem a felicidade juntos. Que nessa busca de que o outro me complete e me traga a felicidade é quando muitos casamentos se dissolvem. Portanto é preciso estar cheio para encontrar uma pessoa em que possam partilhar a felicidade (que ambos encontram dentro de si).

Foi pedido ao adolescente que escolha um boneco para representar a si mesmo e outro para representar esse “vazio” relatado. Ao posicionar o boneco “vazio”, o adolescente relata que seria uma “mulher”, forma feminina. E o posiciona um pouco à frente de seu representante. E assim, é pedido que coloque o representante para sua mãe e outro para seu pai. A imagem fica dessa forma:

  1. Mãe à direita (mancha verde no centro), adolescente ao meio, pai ao lado (verde – menor). Sintoma “Vazio” à frente.

    Foi percebido como estranho o fato do adolescente apesar de dizer tamanhas qualidades do pai o tenha colocado tão pequeno. É quando ele diz que o pai não conheceu a família de origem.

    Após a fala do adolescente sobre a origem do pai, é sentido, fenomenologicamente (através dos movimentos da alma), que o sintoma olha para o representante do pai:

 

O representante do sintoma “olha” para o representante do pai

É colocado assim o representante do adolescente ao lado do representante de seu sintoma, olhando na direção dele, também para o pai:

 

O representante do adolescente “olha” junto com o sintoma, para o pai

Nesse momento o adolescente compreendeu exatamente o que e quem faltava, como ele mesmo diz.. “É  Muita gente”!! É isso que faltava!” sentindo uma grande emoção e alegria.  Assim, foi colocado seus avós não conhecidos atrás de seu pai, como imagem abaixo:

Adolescente olha para a avó e diz: “Vovó, eu vejo você, também senti sua falta. Era você (vazio feminino) que faltava! Obrigada pela vida que deu ao meu pai, Você faz parte.

E assim, o adolescente pôde olhar para a sua avó e dizer a ela, com respeito e carinho: “Querida vovó, eu vejo você. Eu também senti  a sua falta”.  “Obrigada pela vida que chegou até mim através de você, vovó, do jeito que foi.” E com esse olhar sem julgamento pelo fato dela ter entregado seu pai para outra família, nutrindo apenas gratidão por ela ter lhe passado a vida, (além da gratidão por aqueles que cuidaram dele pra que ele sobrevivesse), ele sente uma grande força que passa a sentir em todo o seu corpo: suas mãos vibram (como ele disse: pra fazer coisas boas agora), seus pés sentem a energia da terra em volta dele e em meio a lágrimas ele sente um grande abraço dessa avó paterna. Era essa a mulher que poderia preencher esse vazio, era essa a mulher que faltava. Não era ele quem não teve o toque da mãe, era o seu pai! O vazio que ele sentia era dele, que o adolescente “tomou emprestado” como seu, por amor ao pai. “Eu olho pra vovó no seu lugar,  meu pai, eu carrego esse vazio por você”, por amor.

Bert Hellinger percebeu como comum quando há excluídos na família, e se os pais não olham (talvez por medo da dor, ou raiva), os filhos olham em seu lugar e “carregam o peso” por eles. Para que eles, os pais, de alguma forma, olhem pra isso também. Faz parte de uma das leis do Amor percebidas: A lei da ordem e do pertencimento. Todos (sem exceção) da família precisam ser incluídos e respeitados, para que o fluxo da vida possa seguir de forma harmônica.  E através dessas percepções, o fluxo pôde voltar a fluir da família do pai para o adolescente. Então, João pôde olhar para o pai, agora como grande, cheio e pôde sentir o fluxo do amor dessa família fluindo através de todos para ele.  “POr favor, papai, olhe para a vovó também”

“Por favor, papai, olhe para a vovó também”. O representante do pai olha e reverencia os pais biológicos.

João pôde perceber a grandiosidade desse pai, que mesmo lhe faltando a presença física da mãe, ele conseguiu. E não precisou de drogas (pai teve dificuldades com álcool – que percebemos essa busca como uma ligação com a mãe como falta, um exemplo.: É comum ouvirmos o termo: Fulano está “mamado”, para dizer Bêbado; é como o bebê sente quando acaba de mamar, uma “tontura” semelhante à tontura causada pelo álcool. Por isso esse termo e essa percepção da busca do álcool como uma busca pela mãe, como uma busca por essa sensação semelhante. Mas o pai desse adolescente conseguiu crescer, ter uma família, separar, ter outra. Como esse pai é grande! E essas realizações (casamento e filhos) eram o desejo desse adolescente, que relata que pensava que não passaria dos 20 anos de idade, por tanto envolvimento e busca por drogas. E muitas vezes, em meio a esses pensamentos, sentia-se triste.

**Foi pedido que trocasse o representante do pequeno para um maior. (Os pais, independentes de seu destino ou ações são sempre os grandes em relação aos filhos – Lei da Ordem e Hierarquia) A imagem ficou assim:

A imagem do pai foi trocada por uma maior. O adolescente vê a grandeza do pai em sua história, origem e destino.

O fluxo do amor e da vida agora pode fluir. O representante do vazio, já cumprindo seu papel foi retirado pelo adolescente: “Não existe mais vazio, estou completo agora.” 

“Não existe mais vazio, estou completo agora” Imagem reconfigurada, com os pais e avós biológicos parte de pai.

João assim percebeu que realmente uma companheira não iria preencher esse imenso vazio que antes ele sentia, e que agora, completo, estaria pronto para uma mulher no futuro e um possível filho também (ambos representados na imagem abaixo), e que talvez essa sensação de uma mulher preencher esse vazio também viesse de seu pai, na busca de um possível relacionamento de casal preencher esse vazio, como falta física da mãe e todo o restante da família.

O adolescente com sua possível família no futuro (esposa e filho) e a força de sua família de origem.

O adolescente através dessas percepções, durante 2 horas de atendimento, pôde perceber aonde o sintoma vazio (juntamente com suas atitudes que o trouxeram até aqui) olhavam. Pôde incluir, respeitar e sentir a grande força dessa família, que faltava dentro dele. Com essa força veio o desejo em fazer o bem, veio a gratidão, e com isso o olhar a todos aqueles que de alguma forma este adolescente feriu, direta ou indiretamente. Pôde olhar a todos e assumindo seus atos pedir às vítimas que deixassem com ele qualquer sentimento que de alguma forma ele os fizera despertar.  E que a partir de agora ele iria buscar fazer coisas boas em dobro para outros em homenagem a eles também e à sua família. Pôde assim, sentir como as vítimas podem também se libertar quando devolvem ao seu agressor todo peso causado por ele, e assim possam seguir mais leves. Pôde assim, olhar o mundo com outros olhos e sentir na pele (corpo) essa transformação.

Ao olhar a imagem final, sentindo essa grandiosa força, o adolescente traz um trecho de uma música, a pedido da terapeuta.

O trecho que lhe vem é de um rap que diz:  “O que você faz na vida, ecoa na eternidade”. E dessa vez ele diz querer ecoar coisas boas. E só conseguiu essas percepções em atendimento porque permitiu se abrir e acessar tudo isso. Porque uma parte dele desejava fazer diferente, e então o Universo ajuda aquele que deseja ajuda.

Que Deus e a força de sua família dentro dele o conduzam para melhores caminhos, sabendo-se que o melhor caminho já se iniciou, dentro dele mesmo.  Como diz um grande yogue, Paramahansa Yogananda: “Reforme-se a si mesmo e reformará milhares de outros.” Uma pessoa transformada ecoa em diversos aspectos essa vibração, através de suas ações e pensamentos e então, milhares de outras são beneficiadas, com a mudança de uma só pessoa.

*Conseguimos refletir que quando uma mãe dá o seu filho ela geralmente deseja o melhor pra ele. E muitas vezes esse melhor é visto como situação financeira, dinheiro; por isso ela entrega essa criança, pois muitas vezes é uma questão de sobrevivência mesmo. Tudo isso é muito importante, porém nada tem valor maior do que o toque e o amor como presença dessa família. E o restante, acaba que nada falta. Quando se tem o amor também como presença, se tem tudo. E mesmo na ausência física existem laços invisíveis que nada e nem ninguém pode quebrar. Pois quem faz parte, faz parte pra sempre, é uma questão de pele, é a lei do pertencimento.  João pôde sentir, na pele, tudo isso. E respeitar o destino do pai e de todos como foi. E é desse respeito e reconhecimento que vem a força que ele sentiu.

***Percebemos assim, a importância da inclusão da família de ambos os pais. Muitos adolescentes tem contato e são “permitidos” amar apenas a parte da família da mãe e assim perdem uma grande força proveniente da outra família excluída. Lembrando que independente se bons ou maus, aqueles que nos trazem a vida geram uma grande diferença quando respeitados e honrados dentro do sistema.

**Ao final do atendimento, o adolescente olhou pela janela e viu o sol brilhar de uma forma diferente. As folhas da árvore balançavam de uma forma diferente.. Ele tinha toda sua família dentro dele agora e isso era só o que ele precisava todo esse tempo, sentia Paz. Drogas, dinheiro e “poder” nunca iriam conseguir preencher esse vazio, que só pôde preencher-se no caminho de volta para si mesmo.

Mt. Adriana Silvestre

(Maio/2016)