A inclusão do agressor como solução    

Dentre uma das leis do amor percebidas por Bert Hellinger está a Lei do Pertencimento, onde em um sistema familiar todos têm o mesmo direito de pertencer.  Se algum membro da família for excluído (por julgamento moral ou esquecido- independente do motivo), mais tarde um outro membro da família representará este excluído, de forma a trazer o mesmo destino ou característica semelhante daquele excluído. Isso acontece como forma de equilibrar o sistema, que não aceita nenhuma exclusão, pois todos os membros tem um papel único e são importantes para o sistema. Sendo assim, a inclusão de todos, sem julgamentos é uma solução de melhora para o sistema familiar como um todo, uma vez que toda exclusão gera adoecimento.

Mas, afinal, Quem Pertence ao nosso sistema familiar? -A quem estamos vinculados, mesmo inconscientemente?

*Laços de sangue (Consanguíneos): Pai e Mãe, irmãos e meio irmãos (Vivos ou não / nascidos ou não), tios, avós, bisavós..

*Não consanguíneos: Parceiros anteriores de ambos os pais e/ou avós; pessoas que contribuíram para nossa permanência na vida e/ou sucesso; pessoas que tiraram a vida de algum membro da família (assassinos/agressores) e vítimas de membros agressores da nossa família.

No sistema socioeducativo, onde estão os adolescentes privados de liberdade, por terem cometido algum ato infracional, é muito comum as exclusões, especialmente do pai, em um ou outro caso a exclusão da mãe e em inúmeros casos o de algum agressor da família. Esse agressor passa a pertencer à família da vítima, uma vez que interferiu no destino de algum membro desta e é muito comum os adoecimentos posteriores à esse fato. É comum o ódio e o desejo em fazer o mesmo ao agressor (talvez até mesmo de uma forma mais brutal). – Bert Hellinger percebe que quando excluímos  o agressor, nos tornamos iguais a ele, exatamente porque foi excluído (julgado) e assim, de acordo com essa lei (do pertencimento), algum membro posterior da família se tornará um agressor ou uma vítima, novamente. Até que o agressor possa ter o seu lugar na família, sem julgamentos, esse ciclo continua.

É importante destacar que tanto os assassinos se sentem atraídos para suas vítimas como também as vítimas para seus assassinos, onde ambos se sentem totalmente inteiros quando se encontram. (Hellinger, 2009).  É como se a vítima estivesse mesmo em um movimento inconsciente de morte e assim é atraída à algum acidente de carro, à uma doença que pode ser fatal ou mesmo um encontro com esse agressor que lhe tirará a vida.

Portanto, o amor que cura é aquele que olha para a vítima de sua família e percebe que ela mesma não gostaria que a pessoa derrepente se tornasse um agressor também, destruísse sua vida por um amor cego a ela, um amor que através do ódio levaria a vingança adiante em relação ao agressor ou mesmo a algum outro que cruzasse o seu caminho.

Isso pode ser ilustrado através do caso a seguir:

O adolescente será chamado de Mauro (nome fictício), 17 anos. Cumpre medida socioeducativa por ato análogo a homicídio por tempo estimado de 3 (três) anos, sendo reavaliado a cada 6 (seis) meses. Está há 4 (quatro) meses em internação definitiva.

Foi atendido de forma individual com constelação familiar. Traz característica de depressão desde o ingresso na unidade e traz a sensação verbalizada em sentir-se: “Pesado”.

Caso familiar trazido por ele: Quando o adolescente tinha 15 anos o tio paterno matou o primo materno (considerado como tio) em briga, alcoolizados. Relata assim, desejo de vingança por parte dele em relação ao tio agressor = (Julgamento / Exclusão – neste caso além de ser o agressor da família é também o tio, necessitando pertencer “duplamente”).  Posteriormente, o adolescente comete o ato infracional em relação à outra pessoa (homicídio), em situações semelhantes.

  • ·         A Busca de Solução:
  1.     1.  Olhar ao agressor (tio) representado por um boneco *Com lágrimas nos olhos o adolescente consegue dizer ao tio agressor

“Eu julguei você, e quis me vingar, eu sinto muito”

“Agora eu sei como você se sente”, “Somos iguais”

  1.      2. Olhar à vítima de sua família (primo) – Técnica de visualização:

(Imagem interior): Sorriso do primo para ele.  (“Está tudo bem”)

(AMOR CEGO): “Eu sinto muito a sua falta / Por amor a você, quis me vingar e acabei cometendo o mesmo a outra pessoa” = Expressão triste do primo (Imagem interior)

(AMOR QUE VÊ): “Mas isso foi coisa minha. Agora eu vejo você e estou aprendendo com tudo isso. Vou buscar fazer algo bom em sua homenagem”. = Expressão feliz do primo

  1. Olhar à sua própria vítima:

(Imagem interior) inicial: Expressão séria da vítima.
“Eu tirei a sua vida, eu sinto muito”   = (Responsabilização e Reparação)

“No tempo certo eu vou também.”  (Somos iguais)

          “Vou buscar fazer algo bom também em sua homenagem” = (Retribuição) / Compensação

*Olhar de força em relação à vítima e em relação à ele mesmo.

(Imagem interior) final: Expressão tranquila da vítima.

–Reconciliação: Ambos seguindo em PAZ.

–Sentimento final do adolescente: “Leveza”.

Trecho de Música trazida pelo adolescente após intervenções:

“Hoje estou aqui /Não porque mereço, eu sei /Pois Tu sabes por onde eu andei / Conheces bem o meu perfume /Mas Tu sabes também /Que o meu choro é sincero.” Minha essência (Thiago Brado)

Casos conforme o acima citados são muito comuns no socioeducativo. Como diz Bert Hellinger “Todas as crianças são boas”. (Crianças aqui relatadas representam também adolescentes e adultos relacionados a seus próprios pais e sistema familiar).

Nenhuma criança é difícil. O sistema é difícil. Algo em sua família encontra-se fora de ordem. A desordem principal de uma família é que alguém foi excluído ou esquecido. O que então uma criança faz? Olha para aqueles que foram excluídos. À medida que os excluídos retornam ao campo de visão a criança fica desobrigada. (HELLINGER, 2009, pg 168)

Isso é muito comum também em sintomas casos de hiperatividade, depressão, busca por drogas e afins. (Vejam artigos relacionados neste site)

Por isso, podemos perceber que não é por “falta de amor” que ocorrem tantas dificuldades no mundo e sim, pela forma de amor distorcida (amor cego). Sempre existe algum “amor” por trás das “desordens” no mundo, que pelo próprio nome já diz: “está fora de ordem”: Amor fora de ordem causa desequilíbrios e adoecimentos. Essa é outra lei do amor percebida por Bert Hellinger, que são três, essencialmente: Lei da Ordem (Hierarquia), Pertencimento e Equilíbrio.

A importância desse novo olhar se dá também como prevenção à qualquer outra desordem mais grave que poderia acontecer, como é o caso de duas irmãs adolescentes também privadas de liberdade. Foram apreendidas por análogo a roubo, porém em sua história também houve um assassinato de uma tia. Elas perceberam que começaram a nutrir ódio pelo agressor e que isso se estendeu pela vida delas, tendo por fim a internação. Começaram a agir de forma impulsiva e agressiva com outras pessoas, o que poderia culminar em algum latrocínio ou homicídio. Tendo elas a oportunidade desse novo olhar, puderam olhar internamente para essa tia amada falecida, sentir o amor dela e o que realmente a alegraria se fizessem. Puderam também olhar ao agressor e sentir compaixão por ele:

“Agora eu vejo que ele também tem os sofrimentos dele, senão não teria feito isso. Assim como eu vinha fazendo…”

E assim tiveram a oportunidade de devolver ao agressor o que é dele (a culpa, a raiva sentida por elas), devolver aos próprios pais o que são deles (comportamento mais agressivo do pai, depressão da mãe), receber tudo o que eles conseguiram lhes dar e seguirem mais leves em concordância com tudo como foi e é, sendo agora autoras de sua própria história.

Enfim, Inclusão é Solução. A inclusão de tudo como é e de todos como são. É o olhar, sem amor preferencial ou julgamento, à vítima e agressor. É saber que tudo é um encontro. E como é refletido com os adolescentes, devemos evitar ser o agressor, pois “o agressor é a aquele que sofre mais”. O que fazemos contra o outro na verdade estamos fazendo contra nós mesmos. Da mesma forma, o que fazemos a favor do outro estamos fazendo a nosso próprio favor e de toda a nossa família, que se beneficia e se alegra com a nossa alegria. É percebido que aqueles adolescentes que conseguem fazer esse movimento internamente, tem maior facilidade na mudança de vida exterior e aqueles que não conseguem ou mesmo não desejam se abrir a esse novo olhar continuam na maioria das vezes vinculados aos atos infracionais ou mesmo tem mais dificuldade em se desvincular dos mesmos.

Portanto o MAIS é realmente MAIS: Quanto MAIS pessoas e situações cabem em nosso coração com respeito, melhor ficamos. Quanto menos pessoas em nosso coração (excluídos), pior ficamos e consequentemente, todo o nosso sistema, toda a nossa geração anterior e posterior, uma vez que não estamos isolados do nosso sistema familiar e da consciência Universal, consciência em que todos os sistemas, todos os grupos e pessoas pertencem. Nessa consciência não existe exclusão. É nessa consciência que acontecem as soluções, percebidas nas constelações familiares e na vida.

Mt. Adriana Silvestre

(09/2016)

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HELLINGER, Bert. O Amor do Espírito na Hellinger Ciência, tradução, ed Atman, 2009

ADIMARI, PAES e COSTA; Formação Continuada de Socioeducadores. PREAE-UFMS: 2013. /Inspirado no artigo de LAPLANCHE: Reparação e retribuição penais: Uma perspectiva psicanalítica, 1988)

Indicação de leitura: “Olhando para a alma das crianças”, Bert Hellinger, ed. Atman